Por: Professor Cardozo
E os próximos desafios no processo de federalização
Hoje é dia de lembrar Manoel Mattos, morto no dia 24 de janeiro de 2009, no município de Caaporã, no estado da Paraíba, próximo à divisa com Pernambuco. O advogado e defensor de direitos humanos nasceu e cresceu próximo dali, em Itambé (PE), em uma região onde grupos de extermínio agem livremente, articulados por políticos, policiais e comerciantes locais. Dedicou grande parte da sua vida à luta contra o poder destes grupos, sempre alertando autoridades e companheiros sobre os riscos que corria e sobre a necessidade de ter a proteção garantida pelo Estado.
Para quem viveu e militou ao lado de Manoel Mattos, hoje é um dia triste, mas é também um dia de celebração e movimento. Manoel Mattos foi assassinado, mas sua voz continua viva, ecoada naqueles que herdaram a batalha contra os grupos de extermínio que atuam entre Pernambuco e Paraíba.
A coragem de sua mãe é a maior prova disso. Dona Nair Ávila abraçou os ideais do filho e se mostrou incansável. Foi à imprensa, denunciou o poder dos grupos de extermínio e o descaso de autoridades, esteve em Brasília diversas vezes, foi recebida pelo ex-presidente e por ex-ministros. Dona Nair não se intimidou nem mesmo quando se tornou alvo das ameaças de morte que um dia foram endereçadas a seu filho.
Em outubro do ano passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a investigação e as ações judiciais do assassinato de Manoel Mattos deveriam ser realizadas por órgãos federais – Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal. A federalização de crimes que envolvem graves violações de direitos humanos é vista por alguns analistas como um instrumento capaz de garantir a desarticulação de redes criminosas em algumas regiões do país – e a expectativa dos familiares de Manoel Mattos e das organizações envolvidas nesse debate é justamente essa.
Resta, no entanto, muitas dúvidas e desafios sobre a instauração do Incidente de Deslocamento de Competência (IDC), o mecanismo constitucional que garante a federalização e que até outubro jamais havia sido utilizado. Como será colocado em prática? De que forma se dará a transição para a esfera federal? A Polícia Federal já iniciou as investigações?
Até agora, se sabe muito pouco. “Eu já nem sei mais onde está o processo. Ninguém tem informação, eu fico perdida”, diz dona Nair, demonstrando preocupação. “Eu tenho mais confiança na investigação da Polícia Federal, mas fico apreensiva porque não sei como as coisas estão sendo feitas”.
Para Eduardo Fernandes, assessor jurídico da Dignitatis – organização que, em parceria com a Justiça Global, encaminhou o pedido de federalização à PGR –, o momento é de intensificar as investigações em torno do contexto em que o crime foi cometido, como forma de se chegar aos mandantes do assassinato. “Os órgãos designados para essa missão devem dialogar com instituições, mandatos parlamentares e organizações da sociedade civil que acompanham o caso há anos”, afirma. “Somente desta forma as engrenagens dos grupos de extermínio podem ser finalmente desmontadas”, completa, acrescentando que “sem cooperação, a região da divisa entre Pernambuco e Paraíba continuará sendo chamada de ‘Fronteira do Medo’”.
A proteção de dona Nair e de outras pessoas ameaçadas por grupos de extermínio – como a promotora Rosemary Souto Maior de Almeida e os deputados Fernando Ferro (PE) e Luiz Couto (PB) – também é uma preocupação das organizações que acompanham o caso. “A morte de Manoel Mattos só ocorreu porque o Brasil descumpriu a decisão da OEA que determinava sua proteção. É fundamental que os erros do passado não se repitam”, disse Andressa Caldas, diretora executiva da Justiça Global. “Já se passaram seis meses desde que a OEA determinou a proteção de Dona Nair e de outros familiares de Manoel Mattos, mas ainda estamos lutando para que o Estado brasileiro faça a sua parte”, explicou.
Ontem, no Recife, uma missa foi realizada em memória de Manoel Mattos, com a presença de sua mãe e de outros familiares. Hoje, outra missa será realizada em Itambé. Sem conseguir escolta policial que lhe garantisse a proteção, Dona Nair Ávila não poderá comparecer.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
- O silêncio das vítimas, a UNE estatizada e o pior ministro da classe.
Por: Coluna do Augusto Nunes - revista Veja
O ministro Fernando Haddad só sobreviveu ao primeiro naufrágio do Enem porque a União Nacional dos Estudantes já fora domesticada pelo governo. E só se mantém no emprego porque a UNE velha de guerra foi estatizada em 17 de dezembro de 2010, quando o Ministério da Justiça depositou R$ 30 milhões na conta bancária da entidade. A 17 dias do fim da feira, o presidente que não lê nem sabe escrever consumou a compra da UNE e deu por concluído seu mais ambicioso projeto na área da educação: reduzir a sigla a uma espécie de secretaria especial de proteção à meia-entrada.
O processo de estatização da entidade começou pelo espetacular aumento da mesada federal. Ao longo dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, as verbas destinadas à UNE somaram R$ 1,3 milhão. É uma quantia desprezível se comparada ao que foi arrecadado nos anos de bonança: entre 2003 e 2009, o apoio incondicional a Lula rendeu quase R$ 13 milhões. Não é pouca coisa. Mas parece dinheiro de troco diante dos R$ 57,5 milhões que o governo resolveu doar à UNE em 21 de junho de 2010.
Nessa data, ao chancelar a lei 12.260, Lula “reconheceu a responsabilidade do Estado pela destruição, no ano de 1964, da sede da UNE, localizada na Praia do Flamengo, número 132, no Rio de Janeiro, e, em razão desse reconhecimento, decide indenizá-la”. A bolada que animou o reveillon dos pelegos sub-30 quitou a primeira parcela da indenização. Faltam R$ 14,6 milhões, que Dilma Rousseff prometeu liberar até o fim do ano com o envio ao Congresso de uma Medida Provisória.
A direção da UNE jura que investirá R$ 40 milhões na construção do prédio de 13 andares projetado por Oscar Niemeyer. Além da sede da entidade, o colosso abrigaria um teatro, um memorial e a sede da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Só Deus e os jovens milionários sabem o que será feito do resto.
O que esperam os estudantes com mais de 10 neurônios no cérebro para sepultar de vez a velharia envilecida e criar uma entidade que saiba representá-los efetivamente? Se a UNE não tivesse perdido a vergonha, se os comerciantes de carteirinhas que controlam a sigla não estivessem lá para servir ao PCdoB, Fernando Haddad estaria desempregado há muito tempo. Tranquilizado pelo silêncio dos cúmplices e pela mudez das vítimas, continua liberado para completar a desmontagem do sistema de avaliação do ensino.
Convocado há dias para prestar contas a Dilma, Haddad chegou ao Planalto com cara de aviso prévio e saiu com pose de ministro vitalício. Decidiu adiar as férias ─ para resolver problemas criados por outros. E revelou que durante a conversa a presidente pediu ao pior ministro da classe que melhore o desempenho do MEC. É como pedir ao mais bisonho zagueiro do Jabaquara que jogue como Pelé.
O ministro Fernando Haddad só sobreviveu ao primeiro naufrágio do Enem porque a União Nacional dos Estudantes já fora domesticada pelo governo. E só se mantém no emprego porque a UNE velha de guerra foi estatizada em 17 de dezembro de 2010, quando o Ministério da Justiça depositou R$ 30 milhões na conta bancária da entidade. A 17 dias do fim da feira, o presidente que não lê nem sabe escrever consumou a compra da UNE e deu por concluído seu mais ambicioso projeto na área da educação: reduzir a sigla a uma espécie de secretaria especial de proteção à meia-entrada.
O processo de estatização da entidade começou pelo espetacular aumento da mesada federal. Ao longo dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, as verbas destinadas à UNE somaram R$ 1,3 milhão. É uma quantia desprezível se comparada ao que foi arrecadado nos anos de bonança: entre 2003 e 2009, o apoio incondicional a Lula rendeu quase R$ 13 milhões. Não é pouca coisa. Mas parece dinheiro de troco diante dos R$ 57,5 milhões que o governo resolveu doar à UNE em 21 de junho de 2010.
Nessa data, ao chancelar a lei 12.260, Lula “reconheceu a responsabilidade do Estado pela destruição, no ano de 1964, da sede da UNE, localizada na Praia do Flamengo, número 132, no Rio de Janeiro, e, em razão desse reconhecimento, decide indenizá-la”. A bolada que animou o reveillon dos pelegos sub-30 quitou a primeira parcela da indenização. Faltam R$ 14,6 milhões, que Dilma Rousseff prometeu liberar até o fim do ano com o envio ao Congresso de uma Medida Provisória.
A direção da UNE jura que investirá R$ 40 milhões na construção do prédio de 13 andares projetado por Oscar Niemeyer. Além da sede da entidade, o colosso abrigaria um teatro, um memorial e a sede da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Só Deus e os jovens milionários sabem o que será feito do resto.
O que esperam os estudantes com mais de 10 neurônios no cérebro para sepultar de vez a velharia envilecida e criar uma entidade que saiba representá-los efetivamente? Se a UNE não tivesse perdido a vergonha, se os comerciantes de carteirinhas que controlam a sigla não estivessem lá para servir ao PCdoB, Fernando Haddad estaria desempregado há muito tempo. Tranquilizado pelo silêncio dos cúmplices e pela mudez das vítimas, continua liberado para completar a desmontagem do sistema de avaliação do ensino.
Convocado há dias para prestar contas a Dilma, Haddad chegou ao Planalto com cara de aviso prévio e saiu com pose de ministro vitalício. Decidiu adiar as férias ─ para resolver problemas criados por outros. E revelou que durante a conversa a presidente pediu ao pior ministro da classe que melhore o desempenho do MEC. É como pedir ao mais bisonho zagueiro do Jabaquara que jogue como Pelé.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
- A Economia Política Brasileira do Lulismo sem Lula
POR: VENÂNCIO DE OLIVEIRA
1 - E agora, companheiro?
No dia 31 de outubro de 2010, o Brasil elegeu sua primeira presidenta, Dilma Rousseff, na votação mais apertada desde 1989, 56% contra 43,95% do candidato tucano José Serra. Esta eleição realizou-se em meio a um contexto de grandes ilusões em relação ao poder constituído. Uma forte esperança de abonança futura, isto é, um momento de refluxo para esquerda anticapitalista. Um consenso e uma blindagem que rechaçam qualquer alternativa que proponha a guerra de classes e o conflito social.
Assim, a esquerda atua contra a maré em tempos de bonança econômica em plena crise do capital mundial. Por outro lado, falamos para um futuro que se apresenta no "hoje" em dados ainda embrionários, com mais quedas bruscas do capitalismo que constrói ilusões ao mesmo tempo em que as destrói. Isto é, viveremos mais conjunturas de desestabilização do capitalismo, em um governo que parece ser mais frágil, um lulismo sem a face direta de Lula. Sem ter ilusões na crise "hoje", pois o governo e o capitalismo demonstraram que têm mecanismos para frear uma crise que pareceu fechar o tempo. Este artigo apresenta algumas aproximações conjunturais nacionais e internacionais, para que possamos traçar alguns elementos a fim de pensar o médio prazo. A pergunta da esquerda anticapitalista e socialista para o próximo período deve ser: qual é a nossa estratégia de Alternativa de Poder?
2 - Espelhismos retorcidos da crise mundial
No ano de 2008 o capitalismo tremeu. A bolha no mercado imobiliário dos Estados Unidos começou a estourar e teve como ápice a quebra da Lehmann Brothers. O FMI havia estimado em setembro de 2009 um prejuízo financeiro mundial no total de US$ 30,4 trilhões de dólares ((1) FMI, 2009). A lucratividade financeira entrou em caos crescente. As bolsas no mundo tiveram uma trajetória de queda constante durante o ano de 2008. O índice da Dow Jones abriu o ano em 13.044 pontos e a Nasdaq em 2.609 pontos ((2) 02/01/2008, IPEADATA, 2010), chegando a 7.552 pontos e 1.316 pontos respectivamente no dia mais drástico da contaminação do desequilíbrio financeiro mundial (20/11/2008).
A geografia mundial do capital demonstrou uma reorganização do poder econômico dentro da divisão internacional do trabalho com a ascensão de países como o Brasil, Rússia, China e Índia (BRIC). A imagem desta aproximação pode ser descrita em Obama chamando Lula de "That’s the man", ou "Este é o cara". O tempo e a localização da crise parecem consolidar esta evidência ou ilusão de que os BRIC salvarão capitalismo. Se por um lado a quebra dos bancos estadunidenses teve eco em todo o mundo do dinheiro, com retração do crescimento econômico no Brasil, Rússia, China e Índia, sendo que estes países tiveram em 2008 crescimentos de 5,1%; 5,6%; 9,6% e 7,3% (menor que em 2007), respectivamente, passaram para taxas de -0,2%; -7,9%; 8,7% e; 5,7% em 2009. Por outro lado, estes países se recuperaram rapidamente, recompondo o emprego e consumo interno com projeções positivas para 2010, bem acima do ano anterior (3). Enquanto os dados indicam baixa recuperação dos Estados Unidos e da Europa, na segunda há ameaça generalizada de quebras por déficits públicos, com a conseqüente velha receita: empréstimos generosos do FMI e pacotes fiscais de retirada de direitos.
No dia 4/11 Obama anunciou uma chuva de dinheiro por parte do FED, Banco Central dos Estados Unidos: o governo entrou com um pacote de U$ 600 bilhões de dólares no mercado comprando títulos, criando liquidez. Foi imediato o movimento de alavancagem do IBOVESPA, dentro do encurtamento do espaço-tempo das finanças, "quase" ultrapassando a fronteira histórica de 74.000 pontos, alimentando ilusão de que o Brasil chegaria a 90.000 pontos.
Esta medida de injetar liquidez no mercado mundial tem como objetivos: desvalorização da dívida dos Estados Unidos e tentativa de aumentar suas exportações como um gatilho inflacionário keynesiano de criação de demanda mundial. Este dinheiro entrou nos mercados financeiros, fez dinheiro e voltou. O IBOVESPA logo na semana seguinte teve uma queda para baixo de 69.000 pontos.
As economias dos BRIC começam a desconfiar de tanto amor. A bolha das economias emergentes começa a tomar forma. Na última reunião do G20, China e Brasil reclamaram desta chuva de capital fictício do governo dos Estados Unidos (4). Os chineses têm dupla preocupação: eles são os maiores detentores da dívida estadunidense e sofrerão mais com o problema de inflação mundial.
A crise de alimentos esquecida em 2009 volta no aumento dos preços dos alimentos, maior preocupação dos países com crescimento acelerado que necessitam alimentar sua força de trabalho. O Índice de alimentos da FAO passou de 197,1 pontos (10/10), para 205 (11/10), sendo que no cume da crise financeira, no dia negro das bolsas do mundo (11/08), esteve com 150,5 pontos; e no ápice da crise de alimentos (03/08) atingiu 211,1 pontos (FAO, 2010(5)).
Assim, o mundo parece mais frágil e conturbado, não existe espaço ideal do capitalismo ou modelo sem contradições. A crise internacional apresenta-se em seus diversos feixes contraditórios, espelhismo de imagens retorcidas em que cada espelho distorce e aumenta a confusão da visão da imagem original. Isto é, podemos visualizar apenas os fatos em seu desenrolar, sem, contudo, entender precisamente seu eixo principal, nem prever com confiança o final. Mas é evidente que novos cenários de desestabilização e sinais bruscos de quedas estão por vir.
Qual é o papel da Esquerda?
3 - A esquerda no passado, presente e futuro
Este espelhismo crísico cria ilusões políticas, além de novas versões mais desumanas de recomposição do poder político e social do capital. Nos Estados Unidos, Obama reviveu a "direita da direita" com o Tea Party, o Partido do Chá. No Brasil as ilusões tomam uma narrativa histórica.
O Lulismo consegue cavar seu espaço no imaginário popular. Ele foi aos poucos imprimindo uma nova dinâmica à economia política brasileira, articulou políticas focais, organizando e consolidando uma arquitetura política do Estado da Assistência Social em contraposição ao Estado dos Direitos. Enriqueceu os instrumentos de gestão da pobreza, além de conseguir ser um gatilho de valorização do mercado de trabalho, por conseguir manejar o Exército Industrial de Reserva, dando estabilidade para a oferta de força de trabalho.
No segundo mandato, completa-se o projeto petista de desenvolvimento do capitalismo brasileiro na era das finanças. O Programa de Aceleração Econômica (PAC) organizou diversas obras de infra-estrutura e o BNDES configurou linhas de crédito, buscando a formação de novos conglomerados brasileiros. Somadas a política de crédito pessoal e a política Sul-Sul da diplomacia brasileira (6), o Lulismo reatualiza a Narrativa Varguista na conjuntura crísica do capitalismo de finanças.
O Lulismo é uma combinação de forças, que se aproveitando do acúmulo político da lutas de classes do século XX, levaram o Lula e o PT à direção moral (7) do capitalismo brasileiro e de seu desenvolvimento. Esta correlação de forças se apropria da força social dos movimentos vivos e históricos da classe, além das necessidades de sobrevivência recriadas pela contra-revolução burguesa brasileira, de atualização da super-exploração do trabalho. Assim, recria-se a ideologia passada do capitalismo social.
O nosso hoje está influenciado pelo passado internacional de ilusões de mudar o mundo por meio do desenvolvimento do capitalismo. Ilusão esta que levou ao surgimento do nazi-fascismo. As crises do capitalismo mundial do final de século XIX e do começo do XX foram uma máquina de triturar qualquer suposto maquinista humanista. Elas desmoralizaram a direção hegemônica anterior, trazendo à tona os termos bárbaros de resolução política da crise social e econômica do capitalismo.
O fascismo não foi culpa de uma tática anterior ao seu surgimento, de não aliança dos Comunistas com os Social-democratas, mas sim da tática de 20 anos antes de uma resolução "pacífica" da crise política e econômica da Alemanha. Não é possível saber se o futuro será o mesmo de dantes, nem prevê-lo com seriedade. Mas não podemos alienar nosso potencial dentro de um campo de forças que busca soluções capitalistas para o problema da pobreza. O desenvolvimento do capitalismo é o desabrochar de contradições que podem levar ao caos e esmagar as ilusões que criou, e triturar sonhos reformistas. O fascismo ronda qualquer avanço civilizatório do capital e capitalismo.
4 - Cenários do próximo governo
Nas últimas eleições, apresentaram-se três candidaturas majoritárias. Dilma Rousseff, Marina Silva e José Serra defendiam a manutenção do modelo econômico. Do outro lado da fronteira das candidaturas do poder dominante, estavam P-SOL, PCB e PSTU, cada qual com seu candidato, mas com uma linha de fundo comum, como oposição de esquerda ao governo Lula, levantando a linha da ruptura com a ordem da valorização do capital. Eles alcançaram cerca de 1 % de votação. Parte reduzida de movimentos sociais contra-hegemônicos apoiou as candidaturas anticapitalistas. A maioria do MST e sindicatos esteve presa à tática do neodesenvolvimentismo e se voltou para o campo do Lulismo. No 2° turno, a posição do nulo foi acusada de fazer coro com o vento obscurantista.
Os cenários parecem adversos para a esquerda em geral. A narrativa da "Nação Brasileira Forte para o Mundo" empolga o movimento social. Mas o capitalismo não poupa ninguém, seu movimento demanda lucro e barbárie, e contradiz a si mesmo, abrindo brechas políticas para a oposição do "bloco no governo" atuar. No próximo período, o capitalismo apresentará possíveis cenários desestabilizadores, quais sejam:
Problema da rolagem das dívidas dos países europeus, que geram desesperos financeiros. Os empréstimos do FMI não resolvem o problema de fundo destes países, de gerar valor e excedente. Abre-se assim a via pelo aumento da super-exploração do trabalho em um mundo em que a mercadoria parecia civilizada;
O duplo déficit, comercial e público, dos Estados Unidos, e o fato de eles serem detentores da referência de valor mundial, o dólar. Isto pode levar a conflitos econômicos entre China e EUA, com desvalorizações do dólar mundial, aumento da inflação de custos e acirramento de tensões geográficas regionais;
A bolha dos BRIC, com especulação financeira sobre estes países, pode fazer com que se elevem as expectativas de lucratividade, que produz quedas bruscas e pequenos estouros de bolhas financeiras, desestabilizando os mercados emergentes;
Superprodução de capital da China que pode causar deflação de produtos manufaturados;
Crise de exportação brasileira, prejudicando o produto interno, numa dinâmica de alto endividamento privado e inflação doméstica;
Por outro lado, os últimos três fatores elencados de desestabilização, hoje, são elementos de estabilidade duradoura. No Brasil, este elemento se conjuga com a estabilidade política do Lulismo. Mas a vitória apertada de Dilma nas eleições impõe o desafio de adequar interesses imaginários e conseguir emplacar como a nova "rainha", fato possível de acontecer, dada a força histórica do petismo. O fôlego da China, locomotiva dos BRIC, tende a ser de médio prazo, e o tamanho das economias emergentes também possibilita pequenos arranjos de freio à crise de valorização mundial. Ainda, é possível que as vias para a recomposição do Poder Burguês sejam de ordem autoritária e obscurantista.
Por fim, cabe ressaltar que o desenvolvimentismo abre brechas de atuação da esquerda anticapitalista, mas seu processo não é reto e certo. Cada passo de capitalismo traz em seu bojo a desumanização da humanidade (8). Hoje, os projetos da Copa do Mundo e Olimpíadas e seus despejos forçados, a difícil realização do direito à moradia e terra, além da velha guerra aos pobres, direcionam lugares possíveis de atuação para fortalecer a luta anticapitalista. Mas são pontuais, e fragmentários, como o é a esquerda anticapitalista.
É necessário fortalecer e reformular a narrativa da brasilidade revolucionária, sem nacionalismo e espaços para composição com o poder dominante. A esquerda deverá urgentemente retomar processos integradores de composição política e social com setores amplos do proletariado. O médio prazo passa rápido, em momentos de crises políticas e econômicas cresce o espaço dos extremos, tanto à direita, quanto à esquerda. O Obscurantismo pode tomar facilmente o poder no futuro, se não houver uma Alternativa de Poder Anticapitalista consistente e empolgante preparada desde hoje.
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Venâncio de Oliveira é economista.
1 - E agora, companheiro?
No dia 31 de outubro de 2010, o Brasil elegeu sua primeira presidenta, Dilma Rousseff, na votação mais apertada desde 1989, 56% contra 43,95% do candidato tucano José Serra. Esta eleição realizou-se em meio a um contexto de grandes ilusões em relação ao poder constituído. Uma forte esperança de abonança futura, isto é, um momento de refluxo para esquerda anticapitalista. Um consenso e uma blindagem que rechaçam qualquer alternativa que proponha a guerra de classes e o conflito social.
Assim, a esquerda atua contra a maré em tempos de bonança econômica em plena crise do capital mundial. Por outro lado, falamos para um futuro que se apresenta no "hoje" em dados ainda embrionários, com mais quedas bruscas do capitalismo que constrói ilusões ao mesmo tempo em que as destrói. Isto é, viveremos mais conjunturas de desestabilização do capitalismo, em um governo que parece ser mais frágil, um lulismo sem a face direta de Lula. Sem ter ilusões na crise "hoje", pois o governo e o capitalismo demonstraram que têm mecanismos para frear uma crise que pareceu fechar o tempo. Este artigo apresenta algumas aproximações conjunturais nacionais e internacionais, para que possamos traçar alguns elementos a fim de pensar o médio prazo. A pergunta da esquerda anticapitalista e socialista para o próximo período deve ser: qual é a nossa estratégia de Alternativa de Poder?
2 - Espelhismos retorcidos da crise mundial
No ano de 2008 o capitalismo tremeu. A bolha no mercado imobiliário dos Estados Unidos começou a estourar e teve como ápice a quebra da Lehmann Brothers. O FMI havia estimado em setembro de 2009 um prejuízo financeiro mundial no total de US$ 30,4 trilhões de dólares ((1) FMI, 2009). A lucratividade financeira entrou em caos crescente. As bolsas no mundo tiveram uma trajetória de queda constante durante o ano de 2008. O índice da Dow Jones abriu o ano em 13.044 pontos e a Nasdaq em 2.609 pontos ((2) 02/01/2008, IPEADATA, 2010), chegando a 7.552 pontos e 1.316 pontos respectivamente no dia mais drástico da contaminação do desequilíbrio financeiro mundial (20/11/2008).
A geografia mundial do capital demonstrou uma reorganização do poder econômico dentro da divisão internacional do trabalho com a ascensão de países como o Brasil, Rússia, China e Índia (BRIC). A imagem desta aproximação pode ser descrita em Obama chamando Lula de "That’s the man", ou "Este é o cara". O tempo e a localização da crise parecem consolidar esta evidência ou ilusão de que os BRIC salvarão capitalismo. Se por um lado a quebra dos bancos estadunidenses teve eco em todo o mundo do dinheiro, com retração do crescimento econômico no Brasil, Rússia, China e Índia, sendo que estes países tiveram em 2008 crescimentos de 5,1%; 5,6%; 9,6% e 7,3% (menor que em 2007), respectivamente, passaram para taxas de -0,2%; -7,9%; 8,7% e; 5,7% em 2009. Por outro lado, estes países se recuperaram rapidamente, recompondo o emprego e consumo interno com projeções positivas para 2010, bem acima do ano anterior (3). Enquanto os dados indicam baixa recuperação dos Estados Unidos e da Europa, na segunda há ameaça generalizada de quebras por déficits públicos, com a conseqüente velha receita: empréstimos generosos do FMI e pacotes fiscais de retirada de direitos.
No dia 4/11 Obama anunciou uma chuva de dinheiro por parte do FED, Banco Central dos Estados Unidos: o governo entrou com um pacote de U$ 600 bilhões de dólares no mercado comprando títulos, criando liquidez. Foi imediato o movimento de alavancagem do IBOVESPA, dentro do encurtamento do espaço-tempo das finanças, "quase" ultrapassando a fronteira histórica de 74.000 pontos, alimentando ilusão de que o Brasil chegaria a 90.000 pontos.
Esta medida de injetar liquidez no mercado mundial tem como objetivos: desvalorização da dívida dos Estados Unidos e tentativa de aumentar suas exportações como um gatilho inflacionário keynesiano de criação de demanda mundial. Este dinheiro entrou nos mercados financeiros, fez dinheiro e voltou. O IBOVESPA logo na semana seguinte teve uma queda para baixo de 69.000 pontos.
As economias dos BRIC começam a desconfiar de tanto amor. A bolha das economias emergentes começa a tomar forma. Na última reunião do G20, China e Brasil reclamaram desta chuva de capital fictício do governo dos Estados Unidos (4). Os chineses têm dupla preocupação: eles são os maiores detentores da dívida estadunidense e sofrerão mais com o problema de inflação mundial.
A crise de alimentos esquecida em 2009 volta no aumento dos preços dos alimentos, maior preocupação dos países com crescimento acelerado que necessitam alimentar sua força de trabalho. O Índice de alimentos da FAO passou de 197,1 pontos (10/10), para 205 (11/10), sendo que no cume da crise financeira, no dia negro das bolsas do mundo (11/08), esteve com 150,5 pontos; e no ápice da crise de alimentos (03/08) atingiu 211,1 pontos (FAO, 2010(5)).
Assim, o mundo parece mais frágil e conturbado, não existe espaço ideal do capitalismo ou modelo sem contradições. A crise internacional apresenta-se em seus diversos feixes contraditórios, espelhismo de imagens retorcidas em que cada espelho distorce e aumenta a confusão da visão da imagem original. Isto é, podemos visualizar apenas os fatos em seu desenrolar, sem, contudo, entender precisamente seu eixo principal, nem prever com confiança o final. Mas é evidente que novos cenários de desestabilização e sinais bruscos de quedas estão por vir.
Qual é o papel da Esquerda?
3 - A esquerda no passado, presente e futuro
Este espelhismo crísico cria ilusões políticas, além de novas versões mais desumanas de recomposição do poder político e social do capital. Nos Estados Unidos, Obama reviveu a "direita da direita" com o Tea Party, o Partido do Chá. No Brasil as ilusões tomam uma narrativa histórica.
O Lulismo consegue cavar seu espaço no imaginário popular. Ele foi aos poucos imprimindo uma nova dinâmica à economia política brasileira, articulou políticas focais, organizando e consolidando uma arquitetura política do Estado da Assistência Social em contraposição ao Estado dos Direitos. Enriqueceu os instrumentos de gestão da pobreza, além de conseguir ser um gatilho de valorização do mercado de trabalho, por conseguir manejar o Exército Industrial de Reserva, dando estabilidade para a oferta de força de trabalho.
No segundo mandato, completa-se o projeto petista de desenvolvimento do capitalismo brasileiro na era das finanças. O Programa de Aceleração Econômica (PAC) organizou diversas obras de infra-estrutura e o BNDES configurou linhas de crédito, buscando a formação de novos conglomerados brasileiros. Somadas a política de crédito pessoal e a política Sul-Sul da diplomacia brasileira (6), o Lulismo reatualiza a Narrativa Varguista na conjuntura crísica do capitalismo de finanças.
O Lulismo é uma combinação de forças, que se aproveitando do acúmulo político da lutas de classes do século XX, levaram o Lula e o PT à direção moral (7) do capitalismo brasileiro e de seu desenvolvimento. Esta correlação de forças se apropria da força social dos movimentos vivos e históricos da classe, além das necessidades de sobrevivência recriadas pela contra-revolução burguesa brasileira, de atualização da super-exploração do trabalho. Assim, recria-se a ideologia passada do capitalismo social.
O nosso hoje está influenciado pelo passado internacional de ilusões de mudar o mundo por meio do desenvolvimento do capitalismo. Ilusão esta que levou ao surgimento do nazi-fascismo. As crises do capitalismo mundial do final de século XIX e do começo do XX foram uma máquina de triturar qualquer suposto maquinista humanista. Elas desmoralizaram a direção hegemônica anterior, trazendo à tona os termos bárbaros de resolução política da crise social e econômica do capitalismo.
O fascismo não foi culpa de uma tática anterior ao seu surgimento, de não aliança dos Comunistas com os Social-democratas, mas sim da tática de 20 anos antes de uma resolução "pacífica" da crise política e econômica da Alemanha. Não é possível saber se o futuro será o mesmo de dantes, nem prevê-lo com seriedade. Mas não podemos alienar nosso potencial dentro de um campo de forças que busca soluções capitalistas para o problema da pobreza. O desenvolvimento do capitalismo é o desabrochar de contradições que podem levar ao caos e esmagar as ilusões que criou, e triturar sonhos reformistas. O fascismo ronda qualquer avanço civilizatório do capital e capitalismo.
4 - Cenários do próximo governo
Nas últimas eleições, apresentaram-se três candidaturas majoritárias. Dilma Rousseff, Marina Silva e José Serra defendiam a manutenção do modelo econômico. Do outro lado da fronteira das candidaturas do poder dominante, estavam P-SOL, PCB e PSTU, cada qual com seu candidato, mas com uma linha de fundo comum, como oposição de esquerda ao governo Lula, levantando a linha da ruptura com a ordem da valorização do capital. Eles alcançaram cerca de 1 % de votação. Parte reduzida de movimentos sociais contra-hegemônicos apoiou as candidaturas anticapitalistas. A maioria do MST e sindicatos esteve presa à tática do neodesenvolvimentismo e se voltou para o campo do Lulismo. No 2° turno, a posição do nulo foi acusada de fazer coro com o vento obscurantista.
Os cenários parecem adversos para a esquerda em geral. A narrativa da "Nação Brasileira Forte para o Mundo" empolga o movimento social. Mas o capitalismo não poupa ninguém, seu movimento demanda lucro e barbárie, e contradiz a si mesmo, abrindo brechas políticas para a oposição do "bloco no governo" atuar. No próximo período, o capitalismo apresentará possíveis cenários desestabilizadores, quais sejam:
Problema da rolagem das dívidas dos países europeus, que geram desesperos financeiros. Os empréstimos do FMI não resolvem o problema de fundo destes países, de gerar valor e excedente. Abre-se assim a via pelo aumento da super-exploração do trabalho em um mundo em que a mercadoria parecia civilizada;
O duplo déficit, comercial e público, dos Estados Unidos, e o fato de eles serem detentores da referência de valor mundial, o dólar. Isto pode levar a conflitos econômicos entre China e EUA, com desvalorizações do dólar mundial, aumento da inflação de custos e acirramento de tensões geográficas regionais;
A bolha dos BRIC, com especulação financeira sobre estes países, pode fazer com que se elevem as expectativas de lucratividade, que produz quedas bruscas e pequenos estouros de bolhas financeiras, desestabilizando os mercados emergentes;
Superprodução de capital da China que pode causar deflação de produtos manufaturados;
Crise de exportação brasileira, prejudicando o produto interno, numa dinâmica de alto endividamento privado e inflação doméstica;
Por outro lado, os últimos três fatores elencados de desestabilização, hoje, são elementos de estabilidade duradoura. No Brasil, este elemento se conjuga com a estabilidade política do Lulismo. Mas a vitória apertada de Dilma nas eleições impõe o desafio de adequar interesses imaginários e conseguir emplacar como a nova "rainha", fato possível de acontecer, dada a força histórica do petismo. O fôlego da China, locomotiva dos BRIC, tende a ser de médio prazo, e o tamanho das economias emergentes também possibilita pequenos arranjos de freio à crise de valorização mundial. Ainda, é possível que as vias para a recomposição do Poder Burguês sejam de ordem autoritária e obscurantista.
Por fim, cabe ressaltar que o desenvolvimentismo abre brechas de atuação da esquerda anticapitalista, mas seu processo não é reto e certo. Cada passo de capitalismo traz em seu bojo a desumanização da humanidade (8). Hoje, os projetos da Copa do Mundo e Olimpíadas e seus despejos forçados, a difícil realização do direito à moradia e terra, além da velha guerra aos pobres, direcionam lugares possíveis de atuação para fortalecer a luta anticapitalista. Mas são pontuais, e fragmentários, como o é a esquerda anticapitalista.
É necessário fortalecer e reformular a narrativa da brasilidade revolucionária, sem nacionalismo e espaços para composição com o poder dominante. A esquerda deverá urgentemente retomar processos integradores de composição política e social com setores amplos do proletariado. O médio prazo passa rápido, em momentos de crises políticas e econômicas cresce o espaço dos extremos, tanto à direita, quanto à esquerda. O Obscurantismo pode tomar facilmente o poder no futuro, se não houver uma Alternativa de Poder Anticapitalista consistente e empolgante preparada desde hoje.
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Venâncio de Oliveira é economista.
Tunísia: O significado da primeira revolução democrática árabe do século XXI
Por: Pedro Fuentes
O 2011 começou com uma boa notícia: a derrubada do ditador Bem Alí da Tunísia (Ver o quadro da cronologia deste processo e a reprodução dos artigos do jornal espanhol “El País” em (www.internacionalpsol.wordpress.com ). A corrupção, o totalitarismo do regime e a greve foram os motores da revolução laica e democrática num país árabe no século XXI. Não foi por nada que os meios de comunicação europeus já alertavam pelas repercussões que a mesma terá. Porque, de fato, estão colocadas as condições para que a mesma não signifique apenas a derrota do regime autocrático deste país como também abre um processo novo no norte da África.
A revolução na Tunísia não está terminando com a ditadura apenas neste país como também questiona todos estes regimes. Logo põem em questão todos os governos árabes que dominam a região - Mohamed VI em Marrocos, Muharab no Egito, Hussein na Jordânia, entre outros. Estes governos que até o momento foram pilares fundamentais para os operativos dos Estados Unidos e Europa para manter o domínio no norte da África e no Oriente Médio; sem dúvida a região mais instável e onde está mais comprometida a ordem mundial imperialista surgida no pós-guerra.
Esses regimes, assentados na repressão, não apenas têm sido os grandes produtores de “ouro negro” exportado para o “primeiro mundo”, como também tem cumprindo um papel inestimável – desde os acordos de Camp Davis 1978 – para frear a causa palestina e impedir que triunfe sua heróica resistência. Também sua colaboração foi chave para a invasão norte-americana no Iraque. Por isso, estes regimes têm contado com o apoio dos EUA e países europeus tendo em vista assegurar a estabilidade na região, os seus investimentos, o domínio econômico deles e combater os movimentos islâmicos.
Uma historia de lutas e mobilizações
Os países do norte da África e o Oriente Médio foram cenários de grandes processos de libertação nacional que com o passar dos anos foram se degenerando. Nos anos 1950 no Egito o nasserismo derrubou a autocracia do rei Faisal e nacionalizou o canal de Suez; em 1963 a Argélia derrotou a ocupação francesa e conquistou a independência do país. Nesse país não restou burguesia e se abriu as portas para a revolução encabeçada pela Frente de Libertação Nacional de Bem Bella seguindo os passos de Cuba na ruptura com o imperialismo. Logo grandes conflitos internos na FLN fizeram com que o processo de ida ao socialismo fosse interrompido e acabou por surgir uma burguesia nativa. Na Líbia a onda de nacionalismo levou nos anos de 1970 ao poder Kadafi. Em todos os países os processos encabeçados pelo pan nacionalismo terminaram por acomodar a política imperialista na região, ao mesmo tempo em que se transformaram em regimes autocráticos que utilizaram da repressão para brecar as oposições a eles. Neste contexto, a resistência encabeçada pela Organização pela Libertação da Palestina (OLP) acabou isolada e tendo de aceitar os acordos de Camp Davis.
O vazio deixado pelo pan arabismo acabou sendo ocupado pelos movimentos islâmicos que tiveram e têm setores não sectários que são antiimperialistas conseqüentes e progressistas como o caso do Hezbolah no Líbano e o Hamas na Palestina e outras mais sectárias e fundamentalista que não tem cumprido este papel.]
Uma nova situação para o mundo árabe
A revolução na Tunísia pode abrir uma nova etapa; ela se coloca como um movimento laico e amplo – na qual a juventude tem jogado um papel fundamental –, que nasce das reinvidicações democráticas contra a repressão e a situação econômica da crise que domina a região que tem provocado altos índices de desemprego. Não por acaso o estouro ocorreu no dia 17 de dezembro quando Mohamed Bouazizi, um desempregado universitário de 26 anos, se auto incendiou como protesto contra a crise. A corrupção do regime autocrático e o desemprego crescente foram os motores das manifestações sociais encabeçadas pela juventude.
É muito difícil de acreditar que esta grande revolta que custou a vida de dezenas de jovens que deram o sangue por ela, na qual está participando um amplo setor da população, de intelectuais e de movimentos democráticos de contentem apenas com a saída de Bem Alí. Seguramente começou um novo processo na Tunísia já que os trabalhadores e o povo arrancaram as suas camisas de força que os detinham vão lutar por democracia, trabalho e salários e terão de enfrentar a dependência do FMI e dos capitais estrangeiros. O regime era o preferido do Fundo Monetário Internacional e dos países europeus. A família da esposa do presidente acumula grande parte do poder econômico do país, logo a sua queda coloca em xeque a estrutura e o modelo econômico vigente no país. Como explicava o cronista do “El País” (www.internacionalpsol.wordpress.com) “Quando compra um computador, ou um celular, um carro ou uma pasta de dente, está comprando da família”.
Bem Alí caiu como resultado desta grande mobilização e também porque o exército não entrou abertamente para reprimir. Os mais lúcidos meios de comunicação europeus estão passando o recado tanto para seus governos quanto para o exército da Tunísia. Que este último entenda e garanta como fez na “Revolução dos Cravos”, uma revolução pacífica para um regime democrático. E aconselhando para preparar por um processo de democratização da região, já que tem deixado claro que a segurança em Magreb não à seguram os “déspotas”, que é melhor abrir um processo democrático à democracia antes que novas revoluções democráticas surjam.
O que sucede no futuro dependerá principalmente do que o povo queira; como em toda a revolução esse sempre teve a primeira palavra e terá a última. A juventude da Tunísia tem lutado dia pós dia até derrubar Bem Alí. A juventude que saiu as ruas, que desafiou a repressão e o povo que a apoiou, ganharam o primeiro round. Tiveram de pagar com um alto preço de sangue e dificilmente queiram lhes entregar sem que suas reivindicações comecem a serem resolvidas. Os jovens das cidades, os democratas e os reformistas provaram hoje que é possível ganhar de uma autocracia, mesmo que ela seja apoiada pela Europa e os Estados Unidos.
Caso, como acreditamos, este processo se aprofunde, a revolta da Tunísia poderá ter profundas repercussões em todo o norte da África e Oriente Médio: as ditaduras da Argélia e Egito em primeiro lugar, mas também Marrocos, Jordânia, Líbia, Arábia Saudita podem ser os próximos passos.
Últimas noticias; a revolução se aprofunda
As últimas notícias mostram que na Tunísia há revolução democrática avança enfrentando a resistência do antigo regime. Em resposta aos saques e operações terroristas que estão fazendo as tropas vinculadas ao Ben Ali se formaram comitês por bairros de autodefesa que incluso controlam a circulação das estradas. Trata-se de um processo que se generalizou e abrange a todos os bairros populares e a muitas cidades onde atuam as bandas do Ben Alí. Por sua parte o exército há roto com o velho regime. Tropas especializadas saíram às ruas e tomaram o palácio presidencial que estava em mãos da guarda do ex-presidente.
O vácuo de poder não está ainda resolvido. O premer ministro Mahomed Gacunchi durou 16 horas no poder como presidente e foi substituído pelo presidente do parlamento. Este se apresou a convocar eleições gerais em 90 dias e está chamando a formação de um governo de unidade nacional com partidos opositores excluindo ao Partido Comunista do Tunísia que conta com influencia em sindicatos e rechaçou a formação deste governo. Miles de presos ou escaparam ou forma liberados entre eles o presidente do Partido Comunista do Trabalho.
Ao mesmo tempo, a revolução tunisina começa a ter eco nos países árabes. O jornal “El País” informa que começam a brotar protestos. A situação mais dramática “se registrou em Argélia, onde um homem de 37 anos se queimou ao “bonzo” na região da Tebessa, perto da fronteira com Tunísia, para protestar pela falta de emprego, seguindo o exemplo de uma ação que desencadeou os protestos na Tunísia. Esta é a quarta tentativa de suicídio por fogo que se registra em Argélia desde quarta-feira passada, segundo o jornal “Watan”. Em todos os casos se trata de homens jovens sem emprego”.
“Líbia, outro país magrebí, está sendo também cenário de algumas protesta nas cidades da Darna e Bengasi, onde se estariam registrando incidentes e queimas de alguns comércios. Há também focos de protestos no Trípoli, onde se desdobraram as forças de segurança”. As informações, que procedem das redes sociais de Internet, são escassas. O Governo de Kaddafi bloqueou Youtube esta tarde’.
“El País” reporta também que “milhares de universitários se manifestaram em Sanem, a capital do Yemen, para solidarizar-se com os tunisinos e chamar os povos árabes a rebelar-se contra uns dirigentes "mentirosos e assustados". "Tunísia da liberdade, Sanem te saúda mil vezes", cantaram os estudantes, que também lançaram ordens contra Alí Abdalá Saleh, presidente do Yemen há 32 anos”.
E no Jordânia encabeçaram os protestos “umas centenas de militantes de sindicatos e partidos islâmicos, que se plantaram ante a sede do Parlamento, no Ammán, para pedir a demissão do primeiro-ministro, Samir Rifai, junto com reformas políticas e eleitorais. Além disso, criticaram ao Parlamento por dar, faz um mês, um voto de confiança ao Governo com uma maioria sem precedentes”.
Cronologia dos protestos (do jornal “El País” da Espanha)
17 de Dezembro – Mohamed Bouazizi, um desempregado de 26 anos, se taca fogo em Sidi Bouzid como ato de protesto pela crise. Bouazizi faleceu no hospital no dia 5 de janeiro.
24 de Dezembro – Morrem os primeiros manifestantes por causa dos disparos da polícia num protesto em Menzel Bouzayane, uma cidade localizada no centro do país.
2 de Janeiro – Um grupo de hackers Anonymous anuncia a operação Tunísia em solidariedade as manifestações. As redes do Governo da Tunísia entram em colapso por uma série de ataques digitais.
4 de Janeiro – Os opositores anunciam uma greve geral em protesto a repressão governamental.
7 de Janeiro – As autoridade lançam uma grande operação contra os dissidentes e detém dezenas de jornalistas, ativistas e opositores ao regime. A oposição dá por desaparecido vários.
8 de Janeiro – O sindicato UGTT se soma a mobilização popular. Morrem seis manifestantes e outros seis são feridos gravemente numa manifestação em Tala. Outras três pessoas morrem em enfrentamentos com a polícia na região de Kasserine.
10 de Janeiro – Num discurso televisionado, Bem Alí tenta acalmar os ânimos da população e promete 300.000 novos postos de trabalho.
11 de Janeiro – O governo reconhece 18 mortos nos enfrentamentos, enquanto o sindicato fala em mais de 50. Continua os protestos e Bem Alí declara toque de recolher em Beja, Gafsa, Kasserine e Telab.
12 de Janeiro – O toque de recolher se estende a capital, tomada por veículos blindados. O primeiro ministro, Mohamed Ghanuchi, destitui o ministro do interior, Rafik Belhaj Kacem, e anuncia a libertação de alguns detentos.
13 de Janeiro – O presidente da Tunísia anuncia sua saída em 2014 e promete “uma completa e profunda mudança no regime político”. A violência não para nas ruas e se registra mais 13 mortos.
14 de Janeiro – Milhares de pessoas se manifestam na capital ao grito de “Fora Bem Alí!”. O presidente destitui o governo e decreta estado de sítio. Bem Alí não pode com a pressão e abandona a Tunísia. O primeiro ministro Ghanuchi assume a presidência interina do país.
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Pedro Fuentes é Secretaria de Relações Internacionais PSOL
O 2011 começou com uma boa notícia: a derrubada do ditador Bem Alí da Tunísia (Ver o quadro da cronologia deste processo e a reprodução dos artigos do jornal espanhol “El País” em (www.internacionalpsol.wordpress.com ). A corrupção, o totalitarismo do regime e a greve foram os motores da revolução laica e democrática num país árabe no século XXI. Não foi por nada que os meios de comunicação europeus já alertavam pelas repercussões que a mesma terá. Porque, de fato, estão colocadas as condições para que a mesma não signifique apenas a derrota do regime autocrático deste país como também abre um processo novo no norte da África.
A revolução na Tunísia não está terminando com a ditadura apenas neste país como também questiona todos estes regimes. Logo põem em questão todos os governos árabes que dominam a região - Mohamed VI em Marrocos, Muharab no Egito, Hussein na Jordânia, entre outros. Estes governos que até o momento foram pilares fundamentais para os operativos dos Estados Unidos e Europa para manter o domínio no norte da África e no Oriente Médio; sem dúvida a região mais instável e onde está mais comprometida a ordem mundial imperialista surgida no pós-guerra.
Esses regimes, assentados na repressão, não apenas têm sido os grandes produtores de “ouro negro” exportado para o “primeiro mundo”, como também tem cumprindo um papel inestimável – desde os acordos de Camp Davis 1978 – para frear a causa palestina e impedir que triunfe sua heróica resistência. Também sua colaboração foi chave para a invasão norte-americana no Iraque. Por isso, estes regimes têm contado com o apoio dos EUA e países europeus tendo em vista assegurar a estabilidade na região, os seus investimentos, o domínio econômico deles e combater os movimentos islâmicos.
Uma historia de lutas e mobilizações
Os países do norte da África e o Oriente Médio foram cenários de grandes processos de libertação nacional que com o passar dos anos foram se degenerando. Nos anos 1950 no Egito o nasserismo derrubou a autocracia do rei Faisal e nacionalizou o canal de Suez; em 1963 a Argélia derrotou a ocupação francesa e conquistou a independência do país. Nesse país não restou burguesia e se abriu as portas para a revolução encabeçada pela Frente de Libertação Nacional de Bem Bella seguindo os passos de Cuba na ruptura com o imperialismo. Logo grandes conflitos internos na FLN fizeram com que o processo de ida ao socialismo fosse interrompido e acabou por surgir uma burguesia nativa. Na Líbia a onda de nacionalismo levou nos anos de 1970 ao poder Kadafi. Em todos os países os processos encabeçados pelo pan nacionalismo terminaram por acomodar a política imperialista na região, ao mesmo tempo em que se transformaram em regimes autocráticos que utilizaram da repressão para brecar as oposições a eles. Neste contexto, a resistência encabeçada pela Organização pela Libertação da Palestina (OLP) acabou isolada e tendo de aceitar os acordos de Camp Davis.
O vazio deixado pelo pan arabismo acabou sendo ocupado pelos movimentos islâmicos que tiveram e têm setores não sectários que são antiimperialistas conseqüentes e progressistas como o caso do Hezbolah no Líbano e o Hamas na Palestina e outras mais sectárias e fundamentalista que não tem cumprido este papel.]
Uma nova situação para o mundo árabe
A revolução na Tunísia pode abrir uma nova etapa; ela se coloca como um movimento laico e amplo – na qual a juventude tem jogado um papel fundamental –, que nasce das reinvidicações democráticas contra a repressão e a situação econômica da crise que domina a região que tem provocado altos índices de desemprego. Não por acaso o estouro ocorreu no dia 17 de dezembro quando Mohamed Bouazizi, um desempregado universitário de 26 anos, se auto incendiou como protesto contra a crise. A corrupção do regime autocrático e o desemprego crescente foram os motores das manifestações sociais encabeçadas pela juventude.
É muito difícil de acreditar que esta grande revolta que custou a vida de dezenas de jovens que deram o sangue por ela, na qual está participando um amplo setor da população, de intelectuais e de movimentos democráticos de contentem apenas com a saída de Bem Alí. Seguramente começou um novo processo na Tunísia já que os trabalhadores e o povo arrancaram as suas camisas de força que os detinham vão lutar por democracia, trabalho e salários e terão de enfrentar a dependência do FMI e dos capitais estrangeiros. O regime era o preferido do Fundo Monetário Internacional e dos países europeus. A família da esposa do presidente acumula grande parte do poder econômico do país, logo a sua queda coloca em xeque a estrutura e o modelo econômico vigente no país. Como explicava o cronista do “El País” (www.internacionalpsol.wordpress.com) “Quando compra um computador, ou um celular, um carro ou uma pasta de dente, está comprando da família”.
Bem Alí caiu como resultado desta grande mobilização e também porque o exército não entrou abertamente para reprimir. Os mais lúcidos meios de comunicação europeus estão passando o recado tanto para seus governos quanto para o exército da Tunísia. Que este último entenda e garanta como fez na “Revolução dos Cravos”, uma revolução pacífica para um regime democrático. E aconselhando para preparar por um processo de democratização da região, já que tem deixado claro que a segurança em Magreb não à seguram os “déspotas”, que é melhor abrir um processo democrático à democracia antes que novas revoluções democráticas surjam.
O que sucede no futuro dependerá principalmente do que o povo queira; como em toda a revolução esse sempre teve a primeira palavra e terá a última. A juventude da Tunísia tem lutado dia pós dia até derrubar Bem Alí. A juventude que saiu as ruas, que desafiou a repressão e o povo que a apoiou, ganharam o primeiro round. Tiveram de pagar com um alto preço de sangue e dificilmente queiram lhes entregar sem que suas reivindicações comecem a serem resolvidas. Os jovens das cidades, os democratas e os reformistas provaram hoje que é possível ganhar de uma autocracia, mesmo que ela seja apoiada pela Europa e os Estados Unidos.
Caso, como acreditamos, este processo se aprofunde, a revolta da Tunísia poderá ter profundas repercussões em todo o norte da África e Oriente Médio: as ditaduras da Argélia e Egito em primeiro lugar, mas também Marrocos, Jordânia, Líbia, Arábia Saudita podem ser os próximos passos.
Últimas noticias; a revolução se aprofunda
As últimas notícias mostram que na Tunísia há revolução democrática avança enfrentando a resistência do antigo regime. Em resposta aos saques e operações terroristas que estão fazendo as tropas vinculadas ao Ben Ali se formaram comitês por bairros de autodefesa que incluso controlam a circulação das estradas. Trata-se de um processo que se generalizou e abrange a todos os bairros populares e a muitas cidades onde atuam as bandas do Ben Alí. Por sua parte o exército há roto com o velho regime. Tropas especializadas saíram às ruas e tomaram o palácio presidencial que estava em mãos da guarda do ex-presidente.
O vácuo de poder não está ainda resolvido. O premer ministro Mahomed Gacunchi durou 16 horas no poder como presidente e foi substituído pelo presidente do parlamento. Este se apresou a convocar eleições gerais em 90 dias e está chamando a formação de um governo de unidade nacional com partidos opositores excluindo ao Partido Comunista do Tunísia que conta com influencia em sindicatos e rechaçou a formação deste governo. Miles de presos ou escaparam ou forma liberados entre eles o presidente do Partido Comunista do Trabalho.
Ao mesmo tempo, a revolução tunisina começa a ter eco nos países árabes. O jornal “El País” informa que começam a brotar protestos. A situação mais dramática “se registrou em Argélia, onde um homem de 37 anos se queimou ao “bonzo” na região da Tebessa, perto da fronteira com Tunísia, para protestar pela falta de emprego, seguindo o exemplo de uma ação que desencadeou os protestos na Tunísia. Esta é a quarta tentativa de suicídio por fogo que se registra em Argélia desde quarta-feira passada, segundo o jornal “Watan”. Em todos os casos se trata de homens jovens sem emprego”.
“Líbia, outro país magrebí, está sendo também cenário de algumas protesta nas cidades da Darna e Bengasi, onde se estariam registrando incidentes e queimas de alguns comércios. Há também focos de protestos no Trípoli, onde se desdobraram as forças de segurança”. As informações, que procedem das redes sociais de Internet, são escassas. O Governo de Kaddafi bloqueou Youtube esta tarde’.
“El País” reporta também que “milhares de universitários se manifestaram em Sanem, a capital do Yemen, para solidarizar-se com os tunisinos e chamar os povos árabes a rebelar-se contra uns dirigentes "mentirosos e assustados". "Tunísia da liberdade, Sanem te saúda mil vezes", cantaram os estudantes, que também lançaram ordens contra Alí Abdalá Saleh, presidente do Yemen há 32 anos”.
E no Jordânia encabeçaram os protestos “umas centenas de militantes de sindicatos e partidos islâmicos, que se plantaram ante a sede do Parlamento, no Ammán, para pedir a demissão do primeiro-ministro, Samir Rifai, junto com reformas políticas e eleitorais. Além disso, criticaram ao Parlamento por dar, faz um mês, um voto de confiança ao Governo com uma maioria sem precedentes”.
Cronologia dos protestos (do jornal “El País” da Espanha)
17 de Dezembro – Mohamed Bouazizi, um desempregado de 26 anos, se taca fogo em Sidi Bouzid como ato de protesto pela crise. Bouazizi faleceu no hospital no dia 5 de janeiro.
24 de Dezembro – Morrem os primeiros manifestantes por causa dos disparos da polícia num protesto em Menzel Bouzayane, uma cidade localizada no centro do país.
2 de Janeiro – Um grupo de hackers Anonymous anuncia a operação Tunísia em solidariedade as manifestações. As redes do Governo da Tunísia entram em colapso por uma série de ataques digitais.
4 de Janeiro – Os opositores anunciam uma greve geral em protesto a repressão governamental.
7 de Janeiro – As autoridade lançam uma grande operação contra os dissidentes e detém dezenas de jornalistas, ativistas e opositores ao regime. A oposição dá por desaparecido vários.
8 de Janeiro – O sindicato UGTT se soma a mobilização popular. Morrem seis manifestantes e outros seis são feridos gravemente numa manifestação em Tala. Outras três pessoas morrem em enfrentamentos com a polícia na região de Kasserine.
10 de Janeiro – Num discurso televisionado, Bem Alí tenta acalmar os ânimos da população e promete 300.000 novos postos de trabalho.
11 de Janeiro – O governo reconhece 18 mortos nos enfrentamentos, enquanto o sindicato fala em mais de 50. Continua os protestos e Bem Alí declara toque de recolher em Beja, Gafsa, Kasserine e Telab.
12 de Janeiro – O toque de recolher se estende a capital, tomada por veículos blindados. O primeiro ministro, Mohamed Ghanuchi, destitui o ministro do interior, Rafik Belhaj Kacem, e anuncia a libertação de alguns detentos.
13 de Janeiro – O presidente da Tunísia anuncia sua saída em 2014 e promete “uma completa e profunda mudança no regime político”. A violência não para nas ruas e se registra mais 13 mortos.
14 de Janeiro – Milhares de pessoas se manifestam na capital ao grito de “Fora Bem Alí!”. O presidente destitui o governo e decreta estado de sítio. Bem Alí não pode com a pressão e abandona a Tunísia. O primeiro ministro Ghanuchi assume a presidência interina do país.
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Pedro Fuentes é Secretaria de Relações Internacionais PSOL
É presidenta sim!
Por: Marcos Bagno
O Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma “presidenta”, que assim seja chamada.
Se uma mulher e seu cachorro estão atraves-sando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.
Somente no século 20 as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.
Agora que temos uma mulher na Presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.
Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na Presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?
Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples – e no lugar de um –a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.
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Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília.
Via CartaCapital
O Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma “presidenta”, que assim seja chamada.
Se uma mulher e seu cachorro estão atraves-sando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na gramática das línguas.
Somente no século 20 as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.
Agora que temos uma mulher na Presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.
Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na Presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?
Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples – e no lugar de um –a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.
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Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília.
Via CartaCapital
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
- CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO
CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO
Há uma Ciência Planetária para o desenvolvimento material e imaterial de qualidade: estrutura e dinâmica dos saberem locais e os saberes globais.
Paolo Orefice*
Tradução: Jeorge Luiz Cardozo**
RESUMO
Este ensaio pretende contribuir e responder a estas importantes perguntas: que investigação se necessita para o desenvolvimento? Que desenvolvimento se necessita para a investigação? De resto, o tipo de desenvolvimento de uma sociedade está diretamente relacionado com o tipo de saberes que este legitima, mantém e utiliza; destarte, estes saberes tem a capacidade de estruturar e orientar o desenvolvimento de certa sociedade em uma direção determinada. Na época histórica atual o desenvolvimento das sociedades se encontra suspenso entre os distintos saberes tradicionais e os saberes globais uniformes alimentados pelos conhecimentos científicos e tecnológicos dominantes. Pela crise da racionalidade cientifica moderna que sem duvida tem desempenhado uma função histórica fundamental, está afetando também a racionalidade e a concepção de desenvolvimento que ela mesma fomenta: uma racionalidade segmentada e auto referencial, neo ilustrada e neopositivista, que, trás saber elaborado em uma concepção de progresso como desenvolvimento linear e quantitativo das sociedades industrial do Norte e exportado para os países do Sul, resulta ser parcial e nada natural, e que segue a ética da primazia do primeiro mundo sobre os demais, incluindo a natureza. O eixo histórico contemporâneo consiste em haver erraigado, a escala mundial, uma epistemologia sustentada pela ciência e desenvolvimento alimentados por uma racionalidade complexa, auto-corretiva e empática, em que os saberes locais e os saberes globais se fundam em áreas do desenvolvimento material e imaterial de qualidade.
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*Coordenador Internacional do Projeto Interlinkplus. Catedrático de Pedagogia Social, Departamento de Ciências da Educação, Universidade de Florença, Via Parione, 11B, 50123 Florença, Itália. E-mail: orefice@unifi.it
**Professor Mestre da Faculdade Dom Luiz/Dom Pedro II, Assessor Técnico da Secretaria Municipal da Educação de Salvador. Correspondência, Rua: Jornalista Maria da Ajuda Medeiros, 150, apto. 201, São Rafael – SSA/BA. E-mail: Jcardozo2009.1@gmail.com Blog: http://professorcardozodeputadofderal5013.blogspot.com/
1. CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO: QUE RELAÇÃO MANTÉM?
Minha conferência gira em torno da seguinte interrogação, que constitui um dos problemas que mais preocupa os que dedicam à investigação cientifica e o desenvolvimento nos países tanto do Norte como do Sul: Que investigação se necessita para o desenvolvimento? Que desenvolvimento se necessita para a investigação?
A experiência do trabalho internacional, tanto na Europa como na América Latina, assim como em outros continentes, no planeta constantemente fazem esta pergunta: cremos que a contribuição cientifica é fundamental para realizar programas avançados de melhoramentos das condições de vida das populações e para proteger os bens da natureza e das culturas.
Por suposto, nos cremos que a contribuição cientifica seria a preocupação de todos os problemas. Sabemos que há fatores que vão muito mais da possibilidade da ciência: os fatores culturais, políticos, sociais e econômicos podem determinar o fracasso de um programa de desenvolvimento cientificamente perfeito.
Se os embargos, os fracassos, as deficiências, as limitações de muitos programas de concepções de desenvolvimento não altera o caráter atual e problemático da questão: A concepção cientifica subjacente de muitos programas de desenvolvimento, mas fora dos fatores concorrentes e capazes de ativar os processos de melhoramento e de proteção? Também nos perguntamos: não poderia ser também que essa mesma concepção cientifica das disciplinas que conflui o desenvolvimento se além, implícita e explicitamente, com os fatores que freia e distorce o melhoramento da vida da gente e dos contextos em que esta transcorre sua existência? De forma mais explicita: é possível que a concepção mesma de desenvolvimento adaptado pela investigação cientifica no resultado benéfico para o homem e seus entorno?
É legítimo que se plante esta pergunta todo aquele que, como a investigação universitária, funda seu trabalho de investigação e o critério obrigado de avanço da ciência na dúvida metódica. Creio também existir um motivo muito mais prático e no plano menos importante, que a ilusão da função social do ensino universitário: posto que a formação dos profissionais do desenvolvimento passe por estudos universitários, é indispensável perguntar que concepção de desenvolvimento humano e territorial é tomada como referencia ao ensino universitário. Este problema tem um grande alcance, porque questionam o tipo de formação universitária confirmada os títulos de estudo, dos quais, por sua vez, legitima determinados tipos de ontologia profissional. Por conseguinte, a questão nos afeta solenemente as profissões especializadas em desenvolvimento, sentem as profissões intelectualizadas como Tales.
Não se caia no erro de pensar que a relação entre ciência e sociedade, subjacente a relação ciência - desenvolvimento é algo que interessa só aos países do Sul: Não é uma questão crucial que interessa a investigação e a formação das universidades de todos os continentes. Basta citar, um só para mencionar a perspectiva da União Européia, que no VII Programa Marco de Investigação Comunitária, a relação entre ciência e sociedade se considera fundamental o espaço europeu de conhecimento mais avançado “para o crescimento econômico, bem estar e meio ambiente”.
2. CONHECIMENTO E DESENVOLVIMENTO: UMA RELAÇÃO INSEPARÁVEL.
Para analisar o problema ainda falta declarar desde o princípio que toda ação de desenvolvimento local, nacional, transnacional, independentemente dos objetivos que se marca, baseia-se nos conhecimentos dos atores que a realizam.
Resulta evidentemente que, se observarmos como se desenvolve a vida em uma Aldeia Esquimó tradicional – as formas de vida estão concebidas para suportar as altas temperaturas, as vestes servem para proteger do frio intenso, a alimentação é à base de gorduras, a economia se concentra na caça e na pesca para produzir a energia necessária para a comunidade local. Cito somente os exemplos mais ilustrativos não se pode decidir que este sistema já nascido e se consolidado por causalidade, sendo este, fruto de idéias, conhecimento, saberes, reflexão, que tinha sido selecionados e transmitidos de geração em geração e eixo micro social. Da mesma maneira, se observarmos uma grande cidade industrial, nos daremos conta de que os raciocínios são capazes de alargar em pouco espaço uma enorme quantidade de oficinas e vivências, as fábricas possuem uma maquinaria potente controlada por computadores sofisticados, a rede de metrô translada a grande velocidade circulando de um lado a outro da cidade, os pontos estão abarrotados de transeuntes, com supermercados e auto - serviço de todo tipo, que nos indicam que o modo de viver e de produzir é possível e segue sendo porque a sociedade que eu creio e a agente que utiliza os serviços de um patrimônio de conhecimento, que foi que deu origem a este modo de viver e de que é permitido seguir existindo.
Com estes exemplos é possível defender os postulados seguintes:
1 – O modo de ser das sociedades e o modo de viver da gente não são frutos da causalidade, independentemente das gerações que havia adaptado este modo de viver e o siga adaptando, sendo que as tradições em termos de cultura material e imaterial, de todos os saberes legitimados e tolerados dentro da mesma sociedade.
2 – A origem de um determinado assentamento humano se deve a determinadas formas de conhecimento humano, que resulta indispensável para sua conservação e para qualquer troca em seu interior.
3 – Os conhecimentos que sejam possíveis à manutenção e também a troca de um sistema de vida em um território determinado não são sempre os mesmos e se distribui de forma distinta em um tempo e no espaço.
Retomando os exemplos anteriores, resulta fácil entender que os conhecimentos usados em uma aldeia esquimó são próprios de uma cultura tradicional local, meninas que em uma cidade industrial se usam os conhecimentos da cultura cientifica e tecnológica, que se impôs a importar na Europa na época moderna.
4 - O tipo de sociedade e o tipo de vida de uma população expressam a forma, os modos, os êxitos de desenvolvimento de cada sociedade e de seus habitantes; em geral, toda sociedade expressa seu próprio desenvolvimento, e decide seu modo de realizar, independentemente do juízo que se atribui. Não existem sociedades desenvolvidas e sociedades não desenvolvidas, sim sociedades desenvolvidas de uma maneira ou de outra. Não há sociedades que não tenha seu próprio modo de desenvolver-se. De esse modo desenvolver-se está determinado historicamente e está presente em seu processo evolutivo. Se estudarmos esse processo verá como nasceu essa sociedade, como se consolidou, como se conserva e por último, como vai decaindo para dar lugar a outro processo de desenvolvimento de uma nova sociedade. Portanto, o desenvolvimento de uma sociedade corresponde a seu ciclo de vida.
5 – Se chega à conclusão de que o tipo de desenvolvimento de uma sociedade é a relação direta com o tipo de saberes que utilizam e que estes têm a capacidade de estruturar e orientar o tipo de desenvolvimento de uma sociedade. O ciclo de vida de uma sociedade está estreitamente ligado ao ciclo de vida dos saberes que alimenta: a aparição destas marcas é o nascimento da sociedade, a consolidação destas, conserva a sociedade, a superação destas, marca a decadência da sociedade. Obviamente, dado que a relação se da em ambos sentidos: a sociedade também julga um papel fundamental, na medida em que recebe e mantém os saberes que necessita e aleija e rechaça aqueles que podem por em perigo.
3. O DESENVOLVIMENTO DAS SOCIEDADES ENTRE O SABERES LOCAIS TRADICIONAIS E OS SABERES GLOBAIS ALIMENTADOS DOS CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS E TECNOLÓGICOS MODERNOS.
Se observarmos as sociedades nacionais e locais do Sul e do Norte do mundo, veremos que a relação entre conhecimento e desenvolvimento se divide em sem fim de relações, que – simplificando a máxima, pese a todas as limitações de macro classificações – se podem agrupar em três macros tipologias:
- Em um extremo nos encontramos as sociedades tradicionais fundadas exclusiva e principalmente em saberes de culturas locais ou regionais: por exemplo, as aldeias da Amazônia, cujo desenvolvimento se rege por sistemas de saberes orais, as comunidades humanas da micronésia, donde as culturas locais e seu desenvolvimento estivessem sido afetados por saberes do turismo global.
- Em outro extremo está às sociedades de recente formação, cujo desenvolvimento está fortemente governado por saberes da cultura cientifica e tecnológica mais evoluída de hoje: por exemplo, os novos assentamentos de sociedades urbanas construídas com uma geometria social completamente nova, como Brasília.
- O centro e os lados nos encontramos um conjunto infinito de relações entre saberes antigos com desenvolvimento social e econômicos tradicionais e novos saberes disciplinados com um desenvolvimento pós industrial que dar viés a sociedades muito diversas: desde sociedades com uma forte cultura tradicional muito valorada em um desenvolvimento econômico e social endógeno e sustentável (por exemplo, a sociedade presente na região de Toscana e seus em tornos, na Itália), as sociedades que nos da valor socialmente, desde que se perda o patrimônio cultural do território a favor de formas de desenvolvimento moderno não sustentável endógeno (por exemplo, as de cidades periféricas de grandes cidades tanto do Norte como do Sul do mundo, caracterizadas, em maior ou menor escala, pela urbanização selvagem, pela economia de sobrevivência, o anonimato e a exclusão social).
Em este contexto o problema que saberes para que tipo de desenvolvimento e que tipo de desenvolvimento com que saberes? Face alusão aos saberem utilizados, e sem as tradições científicas, locais e globais.
4. O DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE GLOBAL SEGUE OS SABERES DO RACIONALISMO LINEAR.
Começamos com a crítica e as possibilidades dos saberem científicos e as tecnologias derivadas deles. Existem concepções cientificas e práticas que fomentam os desenvolvimentos típicos de sociedades industriais, estas se encontram atualmente em uma fase de crises profunda a nível mundial: por exemplo, somente, pensamos em os graves danos ao meio ambiente e no caso desigual (por exemplo, entre o Norte e Sul) e a instabilidade dos recursos do planeta e na alteração do equilíbrio ecológico que, durante milhões de anos, é permitido conservar a energia necessária para a manutenção da vida dos homens e das mulheres, dos animais e das plantas. Pensamos também nas novas enfermidades que se está propagando rapidamente nas sociedades ricas do Norte e que está afetando também as camadas mais abastadas do Sul (como as enfermidades nervosas e psicossomáticas derivadas do estresse e da perda do sentido de pertinência das enfermidades circulatórias e os tumores) induzidas – como se havia demonstrado nos estudos internacionais – por modelo de desenvolvimento baseado na acumulação desenfreada de bens materiais. Pensamos também nas novas pandemias da atualidade: desde os milhões de pessoas que morrem anualmente em acidente, no tráfico, com a AIDS, que elimina milhões de homens e mulheres em todos os países pobres, um grande número de pessoas que perdem a vida em acidente de trabalho e a mortalidade infantil, que alcança cifras intoleráveis no Sul do mundo.
Este desenvolvimento devora os recursos sustentáveis do planeta, gerando graves desigualdades entre Norte e Sul e conflitos entre distintas regiões e culturas às vezes inclusas o sonho de uma mesma região, levando a degenerar a violência e guerras. Portanto, é legítimo perguntar-se em que medida a prática deste tipo de desenvolvimento está relacionado com sistemas de saberes fortes, os mais legítimos, que tem uma incidência maior na estrutura do poder e se consideram a si mesmos como racionais e objetivos, pelo que em realidade é expressão de interesses e de perspectiva de uma parte e, portanto, não são capazes de interpretar e de aceitar a independência do fenômeno completo, mostrando-se incapazes de resolver problemas globais, que ao final acabam rebatendo contra os mesmos portadores destes saberem fortes.
A concepção do desenvolvimento entendido como crescimento quantitativo ilimitado das sociedades industriais do Norte e dos cuidados do consumismo mais atendidos a elas, que no Sul do mundo gera pobreza e discriminação no acesso a bens e recursos e, portanto, um desequilíbrio político, social e econômico, está intimamente ligado a uma concepção cientifica moderna epistemologicamente absoleta: uma funciona graças à outra e vice versa, se completando entre si.
Estudar este tipo de relação não é luxo exclusivo de investigadores do mundo acadêmico, sendo que é uma obrigação civil e profissional de todos os responsáveis, a qualquer nível, de estratégias e de práticas de desenvolvimento material e imaterial local, nacional e transnacional: os atuais processos de globalização de esferas cada vez maiores da vida dos homens e das mulheres atuais não são imunes ao problema que acabamos de expor. E mais, se há de dizer claro que um dos riscos históricos de nossa época é a difusão em escala planetária de um modelo de desenvolvimento cultural, social e econômico alimentado pelos paradigmas de uma ciência que, por muito avançada que está tecnologicamente, e co-responsável pela crise que está atravessando a terra – uma crise sem precedentes desde que aparecera a espécie humana a milhões de anos.
Falaremos somente algumas das relações mais significativas. Quem quiser aprofundar pode fazê-lo através de bibliografia. E nesta ocasião nos referimos sobre toda a concepção da ciência demonstrativa nascida da cultura européia moderna, ainda dominante no mundo, que tem sido duramente criticada pela epistemologia contemporânea, sim, pelo elo que se deseje reconhecer a importância que ao longo da história tenha tido essa compreensão do mundo e em seu nascimento da raça humana. Está se fazendo uma crítica da ciência que defende solução mais avançadas de conhecimento cientifico capazes de dialogar e debater com as formas de saber tradicionais não menos fácies, concebidos por sociedades milenares situadas no oriente e no ocidente da Europa.
A primeira crítica se dirige contra uma ciência incumbida da sua lógica de corte racionalista ilustrativa e positivista, que a engendrada na ideologia na fé, na razão absoluta como parâmetros único e indiscutível de progresso e civilização. Logicamente, nada é tão ingênuo ou cego como para nos apreciar as enormes vantagens que os saberes científicos nos permitem e nos seguem permitindo alcançar em os distintos campos da vida humana desde o nascimento da ciência moderna até nossos dias. Também é compreensível que examinemos a “Razão Laica” como forma de interpretar o mundo e mover-se como reação a cultura medieval européia, em que a ciência era fundamentalmente declarativa, se baseava no princípio de alteridade e estava dominada pelo pensamento filosófico dedutivo, que pretendia por si só explicar sistematicamente o homem, o mundo e o universo. Não desejo de maneira alguma diminuir a importância da razão e da investigação cientifica, nem muito menos o desenvolvimento das sociedades. Pelo erro do racionalismo europeu moderno, cometido pela investigação cientifica e transmitidos às sociedades atuais das tecnologias e profissões, e que apresenta limitações inclusive em seus êxitos mais destacados; limitações que há quando perfeitamente presentes em seus mais de quatro séculos de aplicação.
O enfoque disciplinador empírico e experimental propiciado no nascimento e no desenvolvimento dessa enciclopédia extremamente ampla e em crescente expansão que é a ciência moderna: a investigação cientifica estuda âmbitos e setores cada vez mais específicos da realidade, tanto dentro como fora de nosso mundo. Para construir disciplinas e conhecimentos especializados, a investigação cientifica está pagando um preço muito alto, em termo de ampliação da objetividade de concepção de desenvolvimento de nosso planeta.
Seguindo os enfoques lineares das disciplinas, tende a segmentar a realidade, em nosso caso, o desenvolvimento, é a de considerar erroneamente como objetividade última de que está no solo da objetividade do segmento, que se estuda fora de seu contexto. Daí surge à visão exclusivamente economicista do crescimento e das teorias e das práticas de desenvolvimento, que incorre em erro de confundir a capacidade produtiva e a qualidade de vida e os entorno: a qualidade do desenvolvimento do meio ambiente e do homem a de ser tratada por disciplinas e teorias que estudam o bem estar de toda a população e da natureza e seu delicado equilíbrio.
Do mesmo modo, os enfoques especializados e reducionistas que mantêm separados entre si as distintas disciplinas e encerra a teoria e a prática em compartimentos analíticos que não é precisamente neutra: de resto, ao outorgar um valor geral destacando-se claramente a favor de um ponto de vista setorial, que, por muito importante que possa ser, nos da uma imagem distorcida da realidade, na luta, a troca, está constituída por mais setores inter-atuantes. No caso do desenvolvimento de um território que conta com uma sociedade humana determinada e um ambiente natural especifico, deixa legitimação cientifica nos leva, por exemplo, cremos na ilusão de que uma intervenção urbana, incluso si for proporcional ao contexto da vida da gente, basta por si só para frear o desenvolvimento (e não se questiona em absoluto a necessidade de construir casas, escolas, hospitais, carteiras e demais), o que uma intervenção do tipo econômico, por mais necessária que resulta para viver, resolva por si só os problemas da gente, o que uma ação social e educativa dispare por si só o desenvolvimento (que aumente a formação dos jovens, da educação dos adultos e dos serviços sociais indispensáveis). Todos sem exceção crêem que o desenvolvimento está formado por casa, trabalho e escola e se dedem em estes três setores (pelos outros setores iguais e indispensáveis, como a saúde, a liberdade, a boa administração, etc.) e são necessidades fundamentais para a vida da gente ser digna, tanto no Norte como no Sul.
Se posteriormente intentamos ver o grau de objetividade existente na racionalidade geométrica, analítica, que observa o dato a distância, desumanizando e medindo com o otimismo frio da razão separada, nos damos conta de que por um excesso de confiança para resolver séria e coerentemente um determinado problema humano: a leitura de um episódio da vida desde fora, saindo de seu contexto para explicar e experimentar soluções em uma situação parecida a de um laboratório, construída artificialmente, oferece um grau de objetividade facilmente criticável, e que está fora de contexto. O ser vivo, troca segundo este ambiente e de seu contexto.
A questão do contexto não se considera como um critério discriminante para poder haver deduções objetivamente válidas, porque a razão reducionista trata a realidade vivente como um objeto e não como um sujeito. Esta queda claramente demonstrada nas ciências humanas e mais em geral, nas ciências da vida: pensemos na interpretação de um fenômeno social e cultural embasado em variáveis e indicadores concebidos por uma mente de investigação sem perguntar se estas estão presentes e si são significativas para os indivíduos que vivem deste fenômeno social e cultural. É assim com a ciência, com todos os cânones de sua sagrada objetividade, pode levar a discriminação e injustiça, construindo interpretações que não se corresponde com as vivências reais e afetivas dos atores do episodio observado. De resto, há que acelerar onde está à base epistemológica da objetividade cientifica: está na garantia de validade dos procedimentos adaptados pela investigação, independentemente do ponto de vista do sujeito estudado, e, portanto, está todo o elo em um ponto de vista do investigador. O que não faria falta perguntar em que medida o ponto de vista do sujeito investigado e dar uma expressão interpretativa, que, em definitivo, constitui o autêntico dado da realidade que tem ante si o investigador.
Em as ciências da vida biológicas se põem de manifesto e equivoco da racionalidade objetiva do observador cientifico. O eixo de tratar como um objeto a sua disposição a qualquer ser vivo e manipulá-lo a seu gosto é que o investigador incorre em falsidade cientifica: falsifica a interpretação da realidade porque da uma imagem do ser vivo como uma coisa, uma quantidade composta por pena, e fazendo esta interação entre si; e decidir, um objeto que pode desmontar e montar a seu gosto, perdendo por completo a visão de conjunto, e os nexos vitais, das forças energéticas que é igual e importante explorar para entender a natureza da vida e os equilíbrios entre os seres vivos. Esta concepção quantitativa, setorial, reducionista de uma objetividade criticável também se põe em manifesto em o estudo e em tratamento da matéria inerte: até que ponto o descobrimento dos processos químicos e físicos que formam o mundo material, autorizam a ciência, a decidir, a conhecimento humano considerado mais evoluído, a modificar o seu gosto esses processos, produzindo materiais artificiais causando danos ao homem e para o equilíbrio da terra? Pode-se clamar esta ciência, e decidir, um conhecimento capaz de apreender as leis internas da natureza, explica-la e de respeitá-la? Basta citar o caso das numerosas contaminações que está criando danos gravemente ao planeta e seus habitantes.
E que não se diga que o erro não está na investigação cientifica, que é neutra, como também e a racionalidade cientifica, em seu uso impróprio que ela herda da sociedade através de uma má aplicação tecnológica. Uma vez mais, nos encontramos com uma concepção de cientificidade segundo a qual a objetividade se consegue com a “razão segmentada”, que pretende atribuir a um segmento da disciplina e valor do todo, obviamente, portanto, a interpretação de conjunto, que, pelo contrario, nos ofereceria uma explicação completamente distinta do segmento da realidade estudada: a final de contas se trata de uma racionalidade reducionista de tipo formal (o cumprimento das regras e da lógica) que renuncia aos vínculos da explicação situacional (como está colocado esta realidade o mundo em seu conjunto e quais são as relações que o fazem assim) e termina por não conhecer a realidade com sua destrutiva neutralidade, que em realidade com suas regras completas, encarcerada em sua destrutiva neutralidade, que em realidade e uma tomada de postura parcial em nome de uma ciência sem consciência, e decidir, de uma razão manca.
Este é um problema de peso que tem torturado as mentes de grandes cientistas como Einstein durante todo o sigilo passado frente aos nefastos efeitos da manipulação da matéria sobre o equilíbrio do planeta e da vida de milhares de milhões de seres vivos.
Pese a que as questões aqui colocadas sobre a relação entre conhecimento cientificam e utilização do planeta é só uma introdução ao problema é necessário ser tratado com mais profundidade, se pode descer sim ao lugar dado, que a crise da racionalidade e da concepção de desenvolvimento que dela se deriva: uma racionalidade auto-referencial, neo-ilustrada e neo-positivista que, depois de haver elaborado a concepção de progresso como desenvolvimento linear e quantitativo em todas as sociedades industriais do Norte e quererem exportá-lo a outros países do Sul, resultam ser parcial e nada natural, e que persegue a ética da primazia do primeiro mundo sobre todos os outros.
5. HÁ UMA EPISTEMOLOGIA SUSTENTÁVEL NA CIÊNCIA E NO DESENVOLVIMENTO: A BUSCA DE PARADIGMAS NA RACIONALIDADE PLANETARIA.
A esta altura da analise, a relação entre ciência e desenvolvimento nos leva ao cerne da questão: que racionalidade pode adquirir a ciência em um mundo planetário, em que a crise da ciência ocidental está relacionada com as razões dos saberes de outras sociedades e culturas? Que desenvolvimento as sociedades contemporâneas pode conceber e praticar a ciência se ela mesma está falando do peso histórico a um mundo pós-moderno em busca de uma humanidade inteira e por tanto, um humanismo que defende os deveres e os saberes do homo sapiens como tal, não considerado antropocentricamente, sendo uma parte integrante do mesmo sistema de vida na terra e do espaço que a cerca?
Ao lidar com esta interrogação, o debate sobre passa das fronteiras da ortodoxia acadêmica, ancorada em uma ciência conservadora: em as comunidades intelectuais mais investigadoras de distintas culturas e sociedades, entre os representantes das tendências cientificas e ideológicas mais divergentes e com a bagagem de investigação e de cooperação internacional mais variada possível se está produzindo um profundo replanteamento da sustentabilidade epistemológica do conhecimento que possa definir como objetivo e por tanto, cientifico, considerado em seu conjunto e articulado em o pelame de saberem disciplinados. Este replanteamento, por reflexo, nos leva a perguntarmos também pela sustentabilidade e pelas concepções de desenvolvimento humano e das sociedades locais, nacionais e transacionais que o conhecimento mais avançado pretende fomentar.
Pode-se introduzir este amplo debate internacional resumidamente através de alguns paradigmas inovadores da investigação epistemológica contemporânea, que definem os atributos de uma racionalidade digna de escala planetária: entre eles, a racionalidade completa, a racionalidade autocorrigivel, a racionalidade empática.
A RACIONALIDADE COMPLETA
Por que se refere à complexidade da realidade, desde a micro realidade de cada ser vivo a macro realidade do mundo global e mais além, e sobre o tema de complexidade dos enfoques e dos saberes para elaborar uma explicação fiel da realidade e introduzir trocas coerentes, a bibliografia internacional está consolidada e os pontos de referencia estão reconhecidos. Compartimos do critério epistemológico da “ampliação da cientificidade”: a objetividade cientifica se deve não a demonstração de uma tese concreta de um segmento de disciplina, segundo a capacidade dessas teses de embarcar em um conjunto de variáveis que constituem um fenômeno com múltiplas facetas e de aportar uma contribuição significativa à resolução do fenômeno em seu conjunto. Estamos vivendo a transição da cientificidade reducionista da cientificidade completa, que, em alguns aspectos é a realização da primeira e em outros, sua extinção: segue existindo a necessidade de comprovar pontualmente determinados aspectos da realidade examinada por ramas especifica de uma disciplina, pelo o que se ande a comprovação cruzada entre os demais aspectos e as respectivas disciplinas de referencia.
O enfoque integrado do conhecimento, que há dialogar a saberes disciplinares distintos sobre problemas complexos e capazes de oferecer uma interrogação objetivamente confiável e, por conseguinte, se mostra múltiplas chaves capazes de resolver sinergicamente tanto as partes como o conjunto do problema. O componente setorial estudado e a disciplina competente do caso, não perdem valor, sim o que ganha: de resto, sua autonomia de significado e de estudo não menos cabe sua justificação com processos auto-referencial (que, como se sabe,são nós mesmos culpado dos devaneios do especialista como disciplina absoluta e dos graves desequilíbrios do desenvolvimento concebido e praticado unilateralmente), sendo que adquirem um valor danado em sua capacidade de oferecer uma contribuição indispensável que se funde com as demais e dos outros aspectos do problema, como no caso do enfoque interdisciplinar do desenvolvimento integrado de uma sociedade local. Nesse caso, se desmontam os aspectos constituintes do problema do desenvolvimento do território como conjunto em que se entrelaçam distintos aspectos da vida e da população no entorno, e se reconstrói em uma leitura integrada de diversos aspectos: partindo desta base, as disciplinas há de elaborar juntas respostas integrada e total do desenvolvimento da sociedade humana e do meio ambiente de um território determinado. O principio da hierarquia dos saberes disciplinados, que enriquecem alguns, desacredita e exclui outros, acabam substituídos por princípios de complementaridade das partes de cada disciplina, donde, si tem que saber um primado, este será para as teorias disciplinares e das metodologias de atuação que melhor logrem conexões com outros saberes e com outras ontologias profissionais e de atuação.
Por tanto, a ciência completa é uma ciência cooperativa: se alimenta das trocas e dos préstimos entre as disciplina, não é egoísta nem auto-defensiva com o que adquire de cada disciplina, pelo contrario, intenta estabelecer novos laços entre os setores disciplinados, entre sua teorias, entre seus enfoques científicos. É um critério epistemológico que constitui sua cientificidade, a qual se alimenta das cientificidades parciais das disciplinas, e das quais confere um maior nível de confiabilidade cientifica através da aliança interdisciplinar. A ciência completa supõe o abandono definitivo da concepção do saber cientifico encarregado da disciplina como análise separada para abrir a capacidade de fazer uma síntese interdisciplinar da realidade completa.
A RACIONALIDADE AUTO-CORRIGÍVEL.
Esta capacidade que adquirem as teorias e os enfoques de relação para poder explorar um mundo que cada vez se mostra mais interconectada e interdependente modifica o paradigma da ciência moderna fundada sobre a certeza da coisa cientifica e por tanto, sobre a estabilidade da ordenação disciplinaria. Uma disciplina que se permite participar dos processos de análise e de síntese da complexidade da realidade termina por considerar muita sua ordenação interna e admite que possa ser superado por teorias o enfoque disciplinar mais abertos e adequados para ler a nova realidade interconectada. Por tanto, é suscetível de desaparecer cientificamente o sobreviver como uma forma de conhecimento residual e por onde, estéril, se não é capaz de trazer uma nova ordenação disciplinar que formule seu objeto de estudo e a metodologia para estudá-la. A ciência completa é parte da ciência auto-corretiva.
Cada dia que passa os novos cenários da globalização interconecta mais os fenômenos do meio ambiente, social, cultural e econômico em escala mundial, mas também a saúde, os fenômenos ligados à educação, a ordenação territorial. A globalização obra, ademais, profunda das trocas em esquemas mentais e de forma mais geral, em a psicologia dos jovens e dos adultos, tanto ao nível individual como coletivo através de novas Tecnologias de Informações e de Comunicações, que envolve a vida dos habitantes do planeta em uma rede cada vez mais tépida: solo da ciência e das disciplinas individuais que logram corrige-se a si mesma e poder um dia para manter ao passo esta nova revolução dos esquemas da realidade contemporânea, conseguir manter e potencializar sua grande cientificidade e oferecer conhecimentos mais avançados e mais adequados para governar as profundas trocas que estão produzindo.
Em um panorama assim, as marcas das fronteiras entre as disciplinas desaparecem, se reduzem às distâncias entre os conhecimentos próprios de cada disciplina, antes incomunicáveis, e que tem que tratar problemas contínuos (pensemos, por exemplo, em como se entrelaçam o desenvolvimento cultural, o desenvolvimento educativo, o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social). Incluso a tradicional separação entre ciências tradicional e ciências dos homens desaparece criando postulados para uma epistemologia única capaz de reconstruir conjuntamente as bases interpretativas do homem e da sociedade (pensemos na indispensável visão integrada de desenvolvimento material e desenvolvimento imaterial de um território).
A crescente influência entre fenômenos distintos obriga as lógicas disciplinares consolidadas e ancoradas em análises intocáveis de romper a seguridade dos esquemas racionais e deixar que estes se contaminem por outros pontos de vista e nas trocas de conteúdo e métodos. A ciência auto-corretiva obriga a inverter a tendência das disciplinas estacadas e os setores incomunicáveis de uma mesma sociedade própria da epistemologia tradicional, que por sua vez defende uma cientificidade mais aberta à continuidade dos problemas e do acirramento entre os enfoques disciplinares. A condição necessária para que a investigação cientifica possa ser protagonista dos rumos do atual desenvolvimento planetário e a capacidade de por em tela de juízo os ordenamentos mono disciplinares consolidados e de construir redes disciplinarias.
A parte da mestiçagem disciplinaria, outro amplo campo em que as disciplinas separadas devem auto-revisarem é de contê-los as realidades tratadas, em que não pode terminar em marco desta potência. Em concreto, a perspectiva preponderante das disciplinas básicas das ciências humanas segue sendo a ocidental. Por suposto, não quero por em dúvida sua importância histórica. Por esta época de planetarização, em que as sociedades, as culturas e seus saberes está experimentando um giro de trezentos e senta graus, as ciências humanas não podem permitir nenhuma introdução entre as áreas de investigação e didática universitária, as dimensões planetárias do enfoque: desde a filosofia e a história, introduzindo as grandes filosofias das outras culturas e a história de outras grandes regiões do mundo; desde a literatura e a sociologia, como os importantes movimentos literários e artísticos de outras culturas e o estudo das sociedades de outros continentes.
Somos-nos limitados a apresentar primeiramente a grande questão de auto corrigibilidade da ciência e das disciplinas que aspiram a formar parte dela: é suficiente esta introdução para indicar uma linha de investigação que resulta esta insustentabilidade nas universidades e na prática que impera pelos programas de cooperação internacional e o desenvolvimento das sociedades e das culturas. As concepções de desenvolvimento do Sul do mundo fundadas na exportação pura e dura dos modelos de desenvolvimento que estão em plena crise no Norte do mundo, baseadas em exportação de recursos humanos e materiais do Sul, em beneficio do Norte, derivam de uma cultura cientifica e tecnológica que representa, si bem de forma mais sofisticada, uma neocolonização em beneficio dos grandes poderes econômicos e políticos e que aumenta a brecha entre países ricos e pobres, entre as elites e a pobreza, gerando graves desigualdades e tensão que poderia engendrar muita violência dentro da aldeia global. A formação dirigida há uma ciência completa e auto-corretiva tem uma importância fundamental para a construção de novos parâmetros de desenvolvimento sustentável.
A RACIONALIDADE EMPÁTICA
É este paradigma epistemológico de um enfoque cientifico planetário, inovador na investigação e no desenvolvimento, nos remete a dimensão de racionalidade empática, e as disciplinas que estudam as distintas dimensões do entorno, e aí mais, as disciplinas que estudam o ser humano e sua produção cultural, tangível e intangível. Há que enxergar bem esta postura para evitarem equívocos e mal entendidos.
Retrocedemos aos sabores do pensamento cientifico moderno. Se há de recordar o clima histórico em que nasceu a ciência em sua concepção moderna, chamada ciência demonstrativa, porque havia sinergia na competência investigadora baseada na própria experiência. A ciência moderna nasceu como reação frente aos tipos de conhecimento que havia gerado a cultura medieval. Pese a base do desenvolvimento muito dos signos que medem desde a queda do Império romano herda o legado do humanismo, e da cultura medieval o saber era difuso e tinha um forte caráter emocional. Não era mera causalidade que desse saber estivera controlado por uma ciência declarativa edificada sobre o pensamento filosófico dedutivo para uma elite intelectual e de conhecimento de sentido comum com um forte caráter emocional, eram, para o cuidado normal, das caras da mesma moeda. Em ambos os casos o saber adquiria conotações sagradas: o pensamento das elites intelectuais era intocável e inacessível, devia acobertar sim e repetir as crenças que, de alguma maneira, derivavam do mesmo pensamento latente (não duvidemos que a língua e os documentos fossem em latim, falado por muito pouca gente). Em este marco histórico apenas esboçava, o conhecimento doto que emanava de sua origem comum sagrado e autoritário: o profundo caráter moral do conhecimento. O conhecimento se dividia em saberes bom e em saberes do mal: o primeiro, colaborava bem com a existência futura e por tanto, se devia fomentar. O segundo colaborava com o mal e por tanto, se devia evitar sempre. O conhecimento da realidade tinha um valor ético em si e por tanto, alimentava em seu interior uma racionalidade com uma grande carga emotiva: e bem devia ser concebido e desenhado, e o mal não devia ser desejado, sendo temido e aleijado.
Com as trocas históricas do Humanismo e do Renascimento este paradigma entrou em crise. Qualquer oposição à censura do saber e ao saber pregado por ela se paga com a vida. A revolução copernicana do conhecimento cientifico moderno separou a categoria de verdade da categoria de justo: daí que surge o principio da razão objetiva como conhecimento neutro e postura neutra de investigação frente ao objeto estudado. O descobrimento do imenso poder da racionalidade humana, que podia explicar por si só cientificamente a realidade e – ainda mais – transformá-la como sabemos, a fomento e inchamento da razão em muitos signos e mitos da poderosa razão antes da razão positiva despir, como frente garantida de progresso e civilização. Sem substituir o mérito da razão experimental, que havia contribuído também com o nascimento do pensamento democrático e das democracias representativas, esta fé indiscutível na neutralidade da razão cientifica dando origens, como sabem, a tecnologia e as maquinas e ao domínio cada vez maior das maquinas na sociedade industrial, transformando o poder das máquinas e da razão e construindo um modelo de desenvolvimento baseado exclusivamente em quantidade: uma quantidade de bens de consumo, descartáveis e não renováveis que crêem necessário sem fim. São necessidades e bens produzidos por máquinas cada vez mais sofisticados e dominantes, para levar as máquinas imateriais capazes de pensarem pelos homens. Pela racionalidade cientifica moderna, como temos visto antes, ademais de todos os seus méritos indiscutíveis, tem também seu calcanhar de Aquiles, como ficou claro lá atrás: a racionalidade neutra não existe. O principio do conhecimento separado que examina o objeto excluindo o contexto é precisamente um ponto de vista que resulta discutir desde o momento em que se adota a perspectiva da realidade complexa. O enfoque auto-corretivo e complexo é o antídoto contra as distorções de uma realidade que, em nome de sua neutralidade, já perdido contato com o meio ambiente e alterado os equilíbrios da vida do planeta alcançado através de processos evolutivos que já durava milhões de anos. Pelo também perdido o contato com os homens e as mulheres reais, com seus problemas de sobrevivência, com a dignidade de suas vidas, com as injustiças e as infâmias mais cruéis que jamais havia cometido o homem em escala mundial.
Como pode o conhecimento cientifico responder a relação com a natureza, com a qualidade de vida, com a qualidade do desenvolvimento das sociedades locais, nacionais e transnacionais? A resposta se encontra nos estudos que o mesmo conhecimento cientifico está elaborando desde a algumas décadas sobre a natureza e a função do conhecimento na história nosso planeta e da humanidade: as ciências ecológicas, paleo-antropológicas, neurobiológicas e cognitivas mais avançadas nos dizem que o conhecimento humano mais completo é o que integra o conhecimento derivado do sentir com o conhecimento derivado do pensar: a idéia mais profunda dos significados da natureza, do homem, do mundo Não se consegue quando a razão se encerra em si mesma e se isola dos contextos, nem tão pouco quando as emoções e as paixões primam sobre a razão, sim quando a razão não expulsa de si mesma as vivencias emocionais, sim quando dialoga com elas para intentar conhecer os significados profundos da realidade, o que não pode encerrar em um esquema rígido e friamente elaborado, tem que ser manifestado na infinita riqueza da biodiversidade e dos sistemas ecosuntentáveis que vive no planeta. Então, o conhecimento cientifico se libera do equívoco da neutralidade – que de todas as maneiras não cumpria – a racionalidade objetiva, epígeno de uma razão que não a cumpria a promessa de resolver por si só os problemas fundamentais da existência do planeta e de oferecer por si só as chaves do progresso, do desenvolvimento das sociedades, do bem estar e da felicidade a todos os que precisam dela. Pelo contrario, esta nova ciência emergente, visível em tantos estudos de investigação e profissionalização das disciplinas mais variadas que participam de programas de cooperação e desenvolvimento em todos os lugares do mundo, recompõem da unidade de conhecimento sensível e pensante e se converte em racionalidade empática. Aqui não se pretende replantar novamente o dualismo da ciência demonstrativa, que desde a insolência da razão peca de compreensão paternalista. Nem muito menos se pretende retroceder ao largo dos signos da racionalidade pré-moderna, moralizante e censurada subordinada a vivencias emocionais irresolutas.
Trata-se, mais bem de reconstruir uma ética da ciência dentro desta, utilizando seus mesmos instrumentos epistemológicos e científicos, proteção sobre a natureza mesma do conhecimento e sobre seus significados e sua função na vida dos seres humanos e do resto do mundo. É um caminho, que pode utilizar o campo da cooperação internacional para poder criar uma epistemologia do conhecimento cientifico nem reducativamente racional nem pretensiosamente neutra, sim completa, auto-corrigiva e participativa. Por tanto, a ética cientifica, como poderíamos denominá-las também profissionalmente frente ao desenvolvimento, e não fundada no trabalho investigador e prático na relação tradicional entre sujeito investigador e objeto a estudar, si não em relação entre sujeitos autores de saberem distintos: só os saberes intercomunicados e abertos dos investigadores dos que sai ao encontro dos saberes e dos portadores de problemas e de interesses individuais e coletivos, porque também se reconhecem os lugares da natureza e os significados profundos que estes encerram. Desta maneira, tanto um como outro constroem saberes compartilhados e inovadores, capazes de desenvolver as sociedades e suas culturas. Assim, através da prática cientifica e profissional participativa em áreas do desenvolvimento, os investigadores e os cooperados terminam fazendo descobertas totalmente novas e fecundas com uma grande objetividade: as sociedades e as culturas que a racionalidade reducionista havia classificado como subdesenvolvida, emitindo um claro juízo discriminatório, demonstram que possuem saberes que, passa a ser menos sofisticados, são capazes de reconhecer e estabelecer relações equilibradas entre a comunidade humana e a natureza. São culturas, que, passa dos limites e das contradições de sua historia, é saber elaborar o lago dos signos uma boa síntese do sentir e do pensar (pensamos, por exemplo, nas culturas não violentas da Índia e as culturas cooperativas da África subsahariana) sem sofrer o antagonismo emoção-razão que marca a oposição entre as soluções da Idade média e da modernidade ocidental. Assim mesmo, em sua concepção epistemológica, as ciências empáticas, compassivas, participativas e holísticas também estão intentando recompor esta unidade sensível-pensante na mente investigadora e na unidade homem-natureza e desenvolvimento.
Em este caminho, que a voz cientifica e formativa, relacionam ciência e desenvolvimento que arrancamos estas analises enquanto uma resposta entendida como pista de trabalho, tanto para investigadores como para profissionais do desenvolvimento: o conhecimento indispensável para o desenvolvimento de um território não vem dado por saberes do racionalismo disciplinário que rechaça os saberes das culturas tradicionais, nem se limita aos saberes tradicionais que não logram relacionar com os saberes planetários do pensamento cientifico hegemônico. O conhecimento para o desenvolvimento do mundo atual, global e local as vez, demanda um novo estagio epistemológico da ciência: a ciência completa, auto-corrigiva e participativa, construída por investigadores e os profissionais da cooperação junto às comunidades humanas do Norte e do Sul. Esta ciência expressa o estado mais democrático e mais avançado do conhecimento humano em nosso tempo: os saberes que criam o desenvolvimento em um território não é propriedade exclusiva dos investigadores e dos cooperantes, conforme o modelo de saber cientifico moderno que ensina a propriedade exclusiva do experto. São os saberes de uma ciência que se põe ao próprio dialogando com os saberes locais e criando saberes endógenos ecosuntentáveis. Desta maneira, o poder do conhecimento, através da ciência livre e comprometida, envolve a sua natureza original: passa a ser elitista e separada a convertida em patrimônio de todo ser humano para construir sua auto-poesia e participar do desenvolvimento total da comunidade humana. Por conseguinte, os programas de desenvolvimento dos territórios não aplicam modelos idealizados com a racionalidade separada, sendo que, participando em busca de modelos internos a comunidade através da racionalidade completa e auto-corretiva e participativa, oferecem uma importante participação graça a participação de uma ciência planetária mais avançada e de um humanismo planetário inédito e atualmente indispensável.
Está certo que a comunidade cientifica e a cooperação ao desenvolvimento tem ante si, a utopia que deve guiar os projetos de internacionalização da investigação e da formação, como Interlinkplus, que pese as suas limitações, é uma rede de investigadores da universidade italiana e latino americana dedicada a estudar e a experimentar modelos de revalorização conjunta do potencial humano e do patrimônio territorial com o fim de conseguir um desenvolvimento de qualidade em todos os oceanos.
A este respeito, o projeto InterlinkPlus pode constituir uma valiosa ocasião para promover e por em marcha na universidades da América Central e do Caribe, com a colaboração de universidades européias, um programa estratégico de doutorado internacional que forme investigadores de alto nível no campo do desenvolvimento, tal como há pedidos distintos setores da região. Este programa poderia estar aberto a professores e profissionais e da cooperação.
REFERÊNCIAS
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Há uma Ciência Planetária para o desenvolvimento material e imaterial de qualidade: estrutura e dinâmica dos saberem locais e os saberes globais.
Paolo Orefice*
Tradução: Jeorge Luiz Cardozo**
RESUMO
Este ensaio pretende contribuir e responder a estas importantes perguntas: que investigação se necessita para o desenvolvimento? Que desenvolvimento se necessita para a investigação? De resto, o tipo de desenvolvimento de uma sociedade está diretamente relacionado com o tipo de saberes que este legitima, mantém e utiliza; destarte, estes saberes tem a capacidade de estruturar e orientar o desenvolvimento de certa sociedade em uma direção determinada. Na época histórica atual o desenvolvimento das sociedades se encontra suspenso entre os distintos saberes tradicionais e os saberes globais uniformes alimentados pelos conhecimentos científicos e tecnológicos dominantes. Pela crise da racionalidade cientifica moderna que sem duvida tem desempenhado uma função histórica fundamental, está afetando também a racionalidade e a concepção de desenvolvimento que ela mesma fomenta: uma racionalidade segmentada e auto referencial, neo ilustrada e neopositivista, que, trás saber elaborado em uma concepção de progresso como desenvolvimento linear e quantitativo das sociedades industrial do Norte e exportado para os países do Sul, resulta ser parcial e nada natural, e que segue a ética da primazia do primeiro mundo sobre os demais, incluindo a natureza. O eixo histórico contemporâneo consiste em haver erraigado, a escala mundial, uma epistemologia sustentada pela ciência e desenvolvimento alimentados por uma racionalidade complexa, auto-corretiva e empática, em que os saberes locais e os saberes globais se fundam em áreas do desenvolvimento material e imaterial de qualidade.
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*Coordenador Internacional do Projeto Interlinkplus. Catedrático de Pedagogia Social, Departamento de Ciências da Educação, Universidade de Florença, Via Parione, 11B, 50123 Florença, Itália. E-mail: orefice@unifi.it
**Professor Mestre da Faculdade Dom Luiz/Dom Pedro II, Assessor Técnico da Secretaria Municipal da Educação de Salvador. Correspondência, Rua: Jornalista Maria da Ajuda Medeiros, 150, apto. 201, São Rafael – SSA/BA. E-mail: Jcardozo2009.1@gmail.com Blog: http://professorcardozodeputadofderal5013.blogspot.com/
1. CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO: QUE RELAÇÃO MANTÉM?
Minha conferência gira em torno da seguinte interrogação, que constitui um dos problemas que mais preocupa os que dedicam à investigação cientifica e o desenvolvimento nos países tanto do Norte como do Sul: Que investigação se necessita para o desenvolvimento? Que desenvolvimento se necessita para a investigação?
A experiência do trabalho internacional, tanto na Europa como na América Latina, assim como em outros continentes, no planeta constantemente fazem esta pergunta: cremos que a contribuição cientifica é fundamental para realizar programas avançados de melhoramentos das condições de vida das populações e para proteger os bens da natureza e das culturas.
Por suposto, nos cremos que a contribuição cientifica seria a preocupação de todos os problemas. Sabemos que há fatores que vão muito mais da possibilidade da ciência: os fatores culturais, políticos, sociais e econômicos podem determinar o fracasso de um programa de desenvolvimento cientificamente perfeito.
Se os embargos, os fracassos, as deficiências, as limitações de muitos programas de concepções de desenvolvimento não altera o caráter atual e problemático da questão: A concepção cientifica subjacente de muitos programas de desenvolvimento, mas fora dos fatores concorrentes e capazes de ativar os processos de melhoramento e de proteção? Também nos perguntamos: não poderia ser também que essa mesma concepção cientifica das disciplinas que conflui o desenvolvimento se além, implícita e explicitamente, com os fatores que freia e distorce o melhoramento da vida da gente e dos contextos em que esta transcorre sua existência? De forma mais explicita: é possível que a concepção mesma de desenvolvimento adaptado pela investigação cientifica no resultado benéfico para o homem e seus entorno?
É legítimo que se plante esta pergunta todo aquele que, como a investigação universitária, funda seu trabalho de investigação e o critério obrigado de avanço da ciência na dúvida metódica. Creio também existir um motivo muito mais prático e no plano menos importante, que a ilusão da função social do ensino universitário: posto que a formação dos profissionais do desenvolvimento passe por estudos universitários, é indispensável perguntar que concepção de desenvolvimento humano e territorial é tomada como referencia ao ensino universitário. Este problema tem um grande alcance, porque questionam o tipo de formação universitária confirmada os títulos de estudo, dos quais, por sua vez, legitima determinados tipos de ontologia profissional. Por conseguinte, a questão nos afeta solenemente as profissões especializadas em desenvolvimento, sentem as profissões intelectualizadas como Tales.
Não se caia no erro de pensar que a relação entre ciência e sociedade, subjacente a relação ciência - desenvolvimento é algo que interessa só aos países do Sul: Não é uma questão crucial que interessa a investigação e a formação das universidades de todos os continentes. Basta citar, um só para mencionar a perspectiva da União Européia, que no VII Programa Marco de Investigação Comunitária, a relação entre ciência e sociedade se considera fundamental o espaço europeu de conhecimento mais avançado “para o crescimento econômico, bem estar e meio ambiente”.
2. CONHECIMENTO E DESENVOLVIMENTO: UMA RELAÇÃO INSEPARÁVEL.
Para analisar o problema ainda falta declarar desde o princípio que toda ação de desenvolvimento local, nacional, transnacional, independentemente dos objetivos que se marca, baseia-se nos conhecimentos dos atores que a realizam.
Resulta evidentemente que, se observarmos como se desenvolve a vida em uma Aldeia Esquimó tradicional – as formas de vida estão concebidas para suportar as altas temperaturas, as vestes servem para proteger do frio intenso, a alimentação é à base de gorduras, a economia se concentra na caça e na pesca para produzir a energia necessária para a comunidade local. Cito somente os exemplos mais ilustrativos não se pode decidir que este sistema já nascido e se consolidado por causalidade, sendo este, fruto de idéias, conhecimento, saberes, reflexão, que tinha sido selecionados e transmitidos de geração em geração e eixo micro social. Da mesma maneira, se observarmos uma grande cidade industrial, nos daremos conta de que os raciocínios são capazes de alargar em pouco espaço uma enorme quantidade de oficinas e vivências, as fábricas possuem uma maquinaria potente controlada por computadores sofisticados, a rede de metrô translada a grande velocidade circulando de um lado a outro da cidade, os pontos estão abarrotados de transeuntes, com supermercados e auto - serviço de todo tipo, que nos indicam que o modo de viver e de produzir é possível e segue sendo porque a sociedade que eu creio e a agente que utiliza os serviços de um patrimônio de conhecimento, que foi que deu origem a este modo de viver e de que é permitido seguir existindo.
Com estes exemplos é possível defender os postulados seguintes:
1 – O modo de ser das sociedades e o modo de viver da gente não são frutos da causalidade, independentemente das gerações que havia adaptado este modo de viver e o siga adaptando, sendo que as tradições em termos de cultura material e imaterial, de todos os saberes legitimados e tolerados dentro da mesma sociedade.
2 – A origem de um determinado assentamento humano se deve a determinadas formas de conhecimento humano, que resulta indispensável para sua conservação e para qualquer troca em seu interior.
3 – Os conhecimentos que sejam possíveis à manutenção e também a troca de um sistema de vida em um território determinado não são sempre os mesmos e se distribui de forma distinta em um tempo e no espaço.
Retomando os exemplos anteriores, resulta fácil entender que os conhecimentos usados em uma aldeia esquimó são próprios de uma cultura tradicional local, meninas que em uma cidade industrial se usam os conhecimentos da cultura cientifica e tecnológica, que se impôs a importar na Europa na época moderna.
4 - O tipo de sociedade e o tipo de vida de uma população expressam a forma, os modos, os êxitos de desenvolvimento de cada sociedade e de seus habitantes; em geral, toda sociedade expressa seu próprio desenvolvimento, e decide seu modo de realizar, independentemente do juízo que se atribui. Não existem sociedades desenvolvidas e sociedades não desenvolvidas, sim sociedades desenvolvidas de uma maneira ou de outra. Não há sociedades que não tenha seu próprio modo de desenvolver-se. De esse modo desenvolver-se está determinado historicamente e está presente em seu processo evolutivo. Se estudarmos esse processo verá como nasceu essa sociedade, como se consolidou, como se conserva e por último, como vai decaindo para dar lugar a outro processo de desenvolvimento de uma nova sociedade. Portanto, o desenvolvimento de uma sociedade corresponde a seu ciclo de vida.
5 – Se chega à conclusão de que o tipo de desenvolvimento de uma sociedade é a relação direta com o tipo de saberes que utilizam e que estes têm a capacidade de estruturar e orientar o tipo de desenvolvimento de uma sociedade. O ciclo de vida de uma sociedade está estreitamente ligado ao ciclo de vida dos saberes que alimenta: a aparição destas marcas é o nascimento da sociedade, a consolidação destas, conserva a sociedade, a superação destas, marca a decadência da sociedade. Obviamente, dado que a relação se da em ambos sentidos: a sociedade também julga um papel fundamental, na medida em que recebe e mantém os saberes que necessita e aleija e rechaça aqueles que podem por em perigo.
3. O DESENVOLVIMENTO DAS SOCIEDADES ENTRE O SABERES LOCAIS TRADICIONAIS E OS SABERES GLOBAIS ALIMENTADOS DOS CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS E TECNOLÓGICOS MODERNOS.
Se observarmos as sociedades nacionais e locais do Sul e do Norte do mundo, veremos que a relação entre conhecimento e desenvolvimento se divide em sem fim de relações, que – simplificando a máxima, pese a todas as limitações de macro classificações – se podem agrupar em três macros tipologias:
- Em um extremo nos encontramos as sociedades tradicionais fundadas exclusiva e principalmente em saberes de culturas locais ou regionais: por exemplo, as aldeias da Amazônia, cujo desenvolvimento se rege por sistemas de saberes orais, as comunidades humanas da micronésia, donde as culturas locais e seu desenvolvimento estivessem sido afetados por saberes do turismo global.
- Em outro extremo está às sociedades de recente formação, cujo desenvolvimento está fortemente governado por saberes da cultura cientifica e tecnológica mais evoluída de hoje: por exemplo, os novos assentamentos de sociedades urbanas construídas com uma geometria social completamente nova, como Brasília.
- O centro e os lados nos encontramos um conjunto infinito de relações entre saberes antigos com desenvolvimento social e econômicos tradicionais e novos saberes disciplinados com um desenvolvimento pós industrial que dar viés a sociedades muito diversas: desde sociedades com uma forte cultura tradicional muito valorada em um desenvolvimento econômico e social endógeno e sustentável (por exemplo, a sociedade presente na região de Toscana e seus em tornos, na Itália), as sociedades que nos da valor socialmente, desde que se perda o patrimônio cultural do território a favor de formas de desenvolvimento moderno não sustentável endógeno (por exemplo, as de cidades periféricas de grandes cidades tanto do Norte como do Sul do mundo, caracterizadas, em maior ou menor escala, pela urbanização selvagem, pela economia de sobrevivência, o anonimato e a exclusão social).
Em este contexto o problema que saberes para que tipo de desenvolvimento e que tipo de desenvolvimento com que saberes? Face alusão aos saberem utilizados, e sem as tradições científicas, locais e globais.
4. O DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE GLOBAL SEGUE OS SABERES DO RACIONALISMO LINEAR.
Começamos com a crítica e as possibilidades dos saberem científicos e as tecnologias derivadas deles. Existem concepções cientificas e práticas que fomentam os desenvolvimentos típicos de sociedades industriais, estas se encontram atualmente em uma fase de crises profunda a nível mundial: por exemplo, somente, pensamos em os graves danos ao meio ambiente e no caso desigual (por exemplo, entre o Norte e Sul) e a instabilidade dos recursos do planeta e na alteração do equilíbrio ecológico que, durante milhões de anos, é permitido conservar a energia necessária para a manutenção da vida dos homens e das mulheres, dos animais e das plantas. Pensamos também nas novas enfermidades que se está propagando rapidamente nas sociedades ricas do Norte e que está afetando também as camadas mais abastadas do Sul (como as enfermidades nervosas e psicossomáticas derivadas do estresse e da perda do sentido de pertinência das enfermidades circulatórias e os tumores) induzidas – como se havia demonstrado nos estudos internacionais – por modelo de desenvolvimento baseado na acumulação desenfreada de bens materiais. Pensamos também nas novas pandemias da atualidade: desde os milhões de pessoas que morrem anualmente em acidente, no tráfico, com a AIDS, que elimina milhões de homens e mulheres em todos os países pobres, um grande número de pessoas que perdem a vida em acidente de trabalho e a mortalidade infantil, que alcança cifras intoleráveis no Sul do mundo.
Este desenvolvimento devora os recursos sustentáveis do planeta, gerando graves desigualdades entre Norte e Sul e conflitos entre distintas regiões e culturas às vezes inclusas o sonho de uma mesma região, levando a degenerar a violência e guerras. Portanto, é legítimo perguntar-se em que medida a prática deste tipo de desenvolvimento está relacionado com sistemas de saberes fortes, os mais legítimos, que tem uma incidência maior na estrutura do poder e se consideram a si mesmos como racionais e objetivos, pelo que em realidade é expressão de interesses e de perspectiva de uma parte e, portanto, não são capazes de interpretar e de aceitar a independência do fenômeno completo, mostrando-se incapazes de resolver problemas globais, que ao final acabam rebatendo contra os mesmos portadores destes saberem fortes.
A concepção do desenvolvimento entendido como crescimento quantitativo ilimitado das sociedades industriais do Norte e dos cuidados do consumismo mais atendidos a elas, que no Sul do mundo gera pobreza e discriminação no acesso a bens e recursos e, portanto, um desequilíbrio político, social e econômico, está intimamente ligado a uma concepção cientifica moderna epistemologicamente absoleta: uma funciona graças à outra e vice versa, se completando entre si.
Estudar este tipo de relação não é luxo exclusivo de investigadores do mundo acadêmico, sendo que é uma obrigação civil e profissional de todos os responsáveis, a qualquer nível, de estratégias e de práticas de desenvolvimento material e imaterial local, nacional e transnacional: os atuais processos de globalização de esferas cada vez maiores da vida dos homens e das mulheres atuais não são imunes ao problema que acabamos de expor. E mais, se há de dizer claro que um dos riscos históricos de nossa época é a difusão em escala planetária de um modelo de desenvolvimento cultural, social e econômico alimentado pelos paradigmas de uma ciência que, por muito avançada que está tecnologicamente, e co-responsável pela crise que está atravessando a terra – uma crise sem precedentes desde que aparecera a espécie humana a milhões de anos.
Falaremos somente algumas das relações mais significativas. Quem quiser aprofundar pode fazê-lo através de bibliografia. E nesta ocasião nos referimos sobre toda a concepção da ciência demonstrativa nascida da cultura européia moderna, ainda dominante no mundo, que tem sido duramente criticada pela epistemologia contemporânea, sim, pelo elo que se deseje reconhecer a importância que ao longo da história tenha tido essa compreensão do mundo e em seu nascimento da raça humana. Está se fazendo uma crítica da ciência que defende solução mais avançadas de conhecimento cientifico capazes de dialogar e debater com as formas de saber tradicionais não menos fácies, concebidos por sociedades milenares situadas no oriente e no ocidente da Europa.
A primeira crítica se dirige contra uma ciência incumbida da sua lógica de corte racionalista ilustrativa e positivista, que a engendrada na ideologia na fé, na razão absoluta como parâmetros único e indiscutível de progresso e civilização. Logicamente, nada é tão ingênuo ou cego como para nos apreciar as enormes vantagens que os saberes científicos nos permitem e nos seguem permitindo alcançar em os distintos campos da vida humana desde o nascimento da ciência moderna até nossos dias. Também é compreensível que examinemos a “Razão Laica” como forma de interpretar o mundo e mover-se como reação a cultura medieval européia, em que a ciência era fundamentalmente declarativa, se baseava no princípio de alteridade e estava dominada pelo pensamento filosófico dedutivo, que pretendia por si só explicar sistematicamente o homem, o mundo e o universo. Não desejo de maneira alguma diminuir a importância da razão e da investigação cientifica, nem muito menos o desenvolvimento das sociedades. Pelo erro do racionalismo europeu moderno, cometido pela investigação cientifica e transmitidos às sociedades atuais das tecnologias e profissões, e que apresenta limitações inclusive em seus êxitos mais destacados; limitações que há quando perfeitamente presentes em seus mais de quatro séculos de aplicação.
O enfoque disciplinador empírico e experimental propiciado no nascimento e no desenvolvimento dessa enciclopédia extremamente ampla e em crescente expansão que é a ciência moderna: a investigação cientifica estuda âmbitos e setores cada vez mais específicos da realidade, tanto dentro como fora de nosso mundo. Para construir disciplinas e conhecimentos especializados, a investigação cientifica está pagando um preço muito alto, em termo de ampliação da objetividade de concepção de desenvolvimento de nosso planeta.
Seguindo os enfoques lineares das disciplinas, tende a segmentar a realidade, em nosso caso, o desenvolvimento, é a de considerar erroneamente como objetividade última de que está no solo da objetividade do segmento, que se estuda fora de seu contexto. Daí surge à visão exclusivamente economicista do crescimento e das teorias e das práticas de desenvolvimento, que incorre em erro de confundir a capacidade produtiva e a qualidade de vida e os entorno: a qualidade do desenvolvimento do meio ambiente e do homem a de ser tratada por disciplinas e teorias que estudam o bem estar de toda a população e da natureza e seu delicado equilíbrio.
Do mesmo modo, os enfoques especializados e reducionistas que mantêm separados entre si as distintas disciplinas e encerra a teoria e a prática em compartimentos analíticos que não é precisamente neutra: de resto, ao outorgar um valor geral destacando-se claramente a favor de um ponto de vista setorial, que, por muito importante que possa ser, nos da uma imagem distorcida da realidade, na luta, a troca, está constituída por mais setores inter-atuantes. No caso do desenvolvimento de um território que conta com uma sociedade humana determinada e um ambiente natural especifico, deixa legitimação cientifica nos leva, por exemplo, cremos na ilusão de que uma intervenção urbana, incluso si for proporcional ao contexto da vida da gente, basta por si só para frear o desenvolvimento (e não se questiona em absoluto a necessidade de construir casas, escolas, hospitais, carteiras e demais), o que uma intervenção do tipo econômico, por mais necessária que resulta para viver, resolva por si só os problemas da gente, o que uma ação social e educativa dispare por si só o desenvolvimento (que aumente a formação dos jovens, da educação dos adultos e dos serviços sociais indispensáveis). Todos sem exceção crêem que o desenvolvimento está formado por casa, trabalho e escola e se dedem em estes três setores (pelos outros setores iguais e indispensáveis, como a saúde, a liberdade, a boa administração, etc.) e são necessidades fundamentais para a vida da gente ser digna, tanto no Norte como no Sul.
Se posteriormente intentamos ver o grau de objetividade existente na racionalidade geométrica, analítica, que observa o dato a distância, desumanizando e medindo com o otimismo frio da razão separada, nos damos conta de que por um excesso de confiança para resolver séria e coerentemente um determinado problema humano: a leitura de um episódio da vida desde fora, saindo de seu contexto para explicar e experimentar soluções em uma situação parecida a de um laboratório, construída artificialmente, oferece um grau de objetividade facilmente criticável, e que está fora de contexto. O ser vivo, troca segundo este ambiente e de seu contexto.
A questão do contexto não se considera como um critério discriminante para poder haver deduções objetivamente válidas, porque a razão reducionista trata a realidade vivente como um objeto e não como um sujeito. Esta queda claramente demonstrada nas ciências humanas e mais em geral, nas ciências da vida: pensemos na interpretação de um fenômeno social e cultural embasado em variáveis e indicadores concebidos por uma mente de investigação sem perguntar se estas estão presentes e si são significativas para os indivíduos que vivem deste fenômeno social e cultural. É assim com a ciência, com todos os cânones de sua sagrada objetividade, pode levar a discriminação e injustiça, construindo interpretações que não se corresponde com as vivências reais e afetivas dos atores do episodio observado. De resto, há que acelerar onde está à base epistemológica da objetividade cientifica: está na garantia de validade dos procedimentos adaptados pela investigação, independentemente do ponto de vista do sujeito estudado, e, portanto, está todo o elo em um ponto de vista do investigador. O que não faria falta perguntar em que medida o ponto de vista do sujeito investigado e dar uma expressão interpretativa, que, em definitivo, constitui o autêntico dado da realidade que tem ante si o investigador.
Em as ciências da vida biológicas se põem de manifesto e equivoco da racionalidade objetiva do observador cientifico. O eixo de tratar como um objeto a sua disposição a qualquer ser vivo e manipulá-lo a seu gosto é que o investigador incorre em falsidade cientifica: falsifica a interpretação da realidade porque da uma imagem do ser vivo como uma coisa, uma quantidade composta por pena, e fazendo esta interação entre si; e decidir, um objeto que pode desmontar e montar a seu gosto, perdendo por completo a visão de conjunto, e os nexos vitais, das forças energéticas que é igual e importante explorar para entender a natureza da vida e os equilíbrios entre os seres vivos. Esta concepção quantitativa, setorial, reducionista de uma objetividade criticável também se põe em manifesto em o estudo e em tratamento da matéria inerte: até que ponto o descobrimento dos processos químicos e físicos que formam o mundo material, autorizam a ciência, a decidir, a conhecimento humano considerado mais evoluído, a modificar o seu gosto esses processos, produzindo materiais artificiais causando danos ao homem e para o equilíbrio da terra? Pode-se clamar esta ciência, e decidir, um conhecimento capaz de apreender as leis internas da natureza, explica-la e de respeitá-la? Basta citar o caso das numerosas contaminações que está criando danos gravemente ao planeta e seus habitantes.
E que não se diga que o erro não está na investigação cientifica, que é neutra, como também e a racionalidade cientifica, em seu uso impróprio que ela herda da sociedade através de uma má aplicação tecnológica. Uma vez mais, nos encontramos com uma concepção de cientificidade segundo a qual a objetividade se consegue com a “razão segmentada”, que pretende atribuir a um segmento da disciplina e valor do todo, obviamente, portanto, a interpretação de conjunto, que, pelo contrario, nos ofereceria uma explicação completamente distinta do segmento da realidade estudada: a final de contas se trata de uma racionalidade reducionista de tipo formal (o cumprimento das regras e da lógica) que renuncia aos vínculos da explicação situacional (como está colocado esta realidade o mundo em seu conjunto e quais são as relações que o fazem assim) e termina por não conhecer a realidade com sua destrutiva neutralidade, que em realidade com suas regras completas, encarcerada em sua destrutiva neutralidade, que em realidade e uma tomada de postura parcial em nome de uma ciência sem consciência, e decidir, de uma razão manca.
Este é um problema de peso que tem torturado as mentes de grandes cientistas como Einstein durante todo o sigilo passado frente aos nefastos efeitos da manipulação da matéria sobre o equilíbrio do planeta e da vida de milhares de milhões de seres vivos.
Pese a que as questões aqui colocadas sobre a relação entre conhecimento cientificam e utilização do planeta é só uma introdução ao problema é necessário ser tratado com mais profundidade, se pode descer sim ao lugar dado, que a crise da racionalidade e da concepção de desenvolvimento que dela se deriva: uma racionalidade auto-referencial, neo-ilustrada e neo-positivista que, depois de haver elaborado a concepção de progresso como desenvolvimento linear e quantitativo em todas as sociedades industriais do Norte e quererem exportá-lo a outros países do Sul, resultam ser parcial e nada natural, e que persegue a ética da primazia do primeiro mundo sobre todos os outros.
5. HÁ UMA EPISTEMOLOGIA SUSTENTÁVEL NA CIÊNCIA E NO DESENVOLVIMENTO: A BUSCA DE PARADIGMAS NA RACIONALIDADE PLANETARIA.
A esta altura da analise, a relação entre ciência e desenvolvimento nos leva ao cerne da questão: que racionalidade pode adquirir a ciência em um mundo planetário, em que a crise da ciência ocidental está relacionada com as razões dos saberes de outras sociedades e culturas? Que desenvolvimento as sociedades contemporâneas pode conceber e praticar a ciência se ela mesma está falando do peso histórico a um mundo pós-moderno em busca de uma humanidade inteira e por tanto, um humanismo que defende os deveres e os saberes do homo sapiens como tal, não considerado antropocentricamente, sendo uma parte integrante do mesmo sistema de vida na terra e do espaço que a cerca?
Ao lidar com esta interrogação, o debate sobre passa das fronteiras da ortodoxia acadêmica, ancorada em uma ciência conservadora: em as comunidades intelectuais mais investigadoras de distintas culturas e sociedades, entre os representantes das tendências cientificas e ideológicas mais divergentes e com a bagagem de investigação e de cooperação internacional mais variada possível se está produzindo um profundo replanteamento da sustentabilidade epistemológica do conhecimento que possa definir como objetivo e por tanto, cientifico, considerado em seu conjunto e articulado em o pelame de saberem disciplinados. Este replanteamento, por reflexo, nos leva a perguntarmos também pela sustentabilidade e pelas concepções de desenvolvimento humano e das sociedades locais, nacionais e transacionais que o conhecimento mais avançado pretende fomentar.
Pode-se introduzir este amplo debate internacional resumidamente através de alguns paradigmas inovadores da investigação epistemológica contemporânea, que definem os atributos de uma racionalidade digna de escala planetária: entre eles, a racionalidade completa, a racionalidade autocorrigivel, a racionalidade empática.
A RACIONALIDADE COMPLETA
Por que se refere à complexidade da realidade, desde a micro realidade de cada ser vivo a macro realidade do mundo global e mais além, e sobre o tema de complexidade dos enfoques e dos saberes para elaborar uma explicação fiel da realidade e introduzir trocas coerentes, a bibliografia internacional está consolidada e os pontos de referencia estão reconhecidos. Compartimos do critério epistemológico da “ampliação da cientificidade”: a objetividade cientifica se deve não a demonstração de uma tese concreta de um segmento de disciplina, segundo a capacidade dessas teses de embarcar em um conjunto de variáveis que constituem um fenômeno com múltiplas facetas e de aportar uma contribuição significativa à resolução do fenômeno em seu conjunto. Estamos vivendo a transição da cientificidade reducionista da cientificidade completa, que, em alguns aspectos é a realização da primeira e em outros, sua extinção: segue existindo a necessidade de comprovar pontualmente determinados aspectos da realidade examinada por ramas especifica de uma disciplina, pelo o que se ande a comprovação cruzada entre os demais aspectos e as respectivas disciplinas de referencia.
O enfoque integrado do conhecimento, que há dialogar a saberes disciplinares distintos sobre problemas complexos e capazes de oferecer uma interrogação objetivamente confiável e, por conseguinte, se mostra múltiplas chaves capazes de resolver sinergicamente tanto as partes como o conjunto do problema. O componente setorial estudado e a disciplina competente do caso, não perdem valor, sim o que ganha: de resto, sua autonomia de significado e de estudo não menos cabe sua justificação com processos auto-referencial (que, como se sabe,são nós mesmos culpado dos devaneios do especialista como disciplina absoluta e dos graves desequilíbrios do desenvolvimento concebido e praticado unilateralmente), sendo que adquirem um valor danado em sua capacidade de oferecer uma contribuição indispensável que se funde com as demais e dos outros aspectos do problema, como no caso do enfoque interdisciplinar do desenvolvimento integrado de uma sociedade local. Nesse caso, se desmontam os aspectos constituintes do problema do desenvolvimento do território como conjunto em que se entrelaçam distintos aspectos da vida e da população no entorno, e se reconstrói em uma leitura integrada de diversos aspectos: partindo desta base, as disciplinas há de elaborar juntas respostas integrada e total do desenvolvimento da sociedade humana e do meio ambiente de um território determinado. O principio da hierarquia dos saberes disciplinados, que enriquecem alguns, desacredita e exclui outros, acabam substituídos por princípios de complementaridade das partes de cada disciplina, donde, si tem que saber um primado, este será para as teorias disciplinares e das metodologias de atuação que melhor logrem conexões com outros saberes e com outras ontologias profissionais e de atuação.
Por tanto, a ciência completa é uma ciência cooperativa: se alimenta das trocas e dos préstimos entre as disciplina, não é egoísta nem auto-defensiva com o que adquire de cada disciplina, pelo contrario, intenta estabelecer novos laços entre os setores disciplinados, entre sua teorias, entre seus enfoques científicos. É um critério epistemológico que constitui sua cientificidade, a qual se alimenta das cientificidades parciais das disciplinas, e das quais confere um maior nível de confiabilidade cientifica através da aliança interdisciplinar. A ciência completa supõe o abandono definitivo da concepção do saber cientifico encarregado da disciplina como análise separada para abrir a capacidade de fazer uma síntese interdisciplinar da realidade completa.
A RACIONALIDADE AUTO-CORRIGÍVEL.
Esta capacidade que adquirem as teorias e os enfoques de relação para poder explorar um mundo que cada vez se mostra mais interconectada e interdependente modifica o paradigma da ciência moderna fundada sobre a certeza da coisa cientifica e por tanto, sobre a estabilidade da ordenação disciplinaria. Uma disciplina que se permite participar dos processos de análise e de síntese da complexidade da realidade termina por considerar muita sua ordenação interna e admite que possa ser superado por teorias o enfoque disciplinar mais abertos e adequados para ler a nova realidade interconectada. Por tanto, é suscetível de desaparecer cientificamente o sobreviver como uma forma de conhecimento residual e por onde, estéril, se não é capaz de trazer uma nova ordenação disciplinar que formule seu objeto de estudo e a metodologia para estudá-la. A ciência completa é parte da ciência auto-corretiva.
Cada dia que passa os novos cenários da globalização interconecta mais os fenômenos do meio ambiente, social, cultural e econômico em escala mundial, mas também a saúde, os fenômenos ligados à educação, a ordenação territorial. A globalização obra, ademais, profunda das trocas em esquemas mentais e de forma mais geral, em a psicologia dos jovens e dos adultos, tanto ao nível individual como coletivo através de novas Tecnologias de Informações e de Comunicações, que envolve a vida dos habitantes do planeta em uma rede cada vez mais tépida: solo da ciência e das disciplinas individuais que logram corrige-se a si mesma e poder um dia para manter ao passo esta nova revolução dos esquemas da realidade contemporânea, conseguir manter e potencializar sua grande cientificidade e oferecer conhecimentos mais avançados e mais adequados para governar as profundas trocas que estão produzindo.
Em um panorama assim, as marcas das fronteiras entre as disciplinas desaparecem, se reduzem às distâncias entre os conhecimentos próprios de cada disciplina, antes incomunicáveis, e que tem que tratar problemas contínuos (pensemos, por exemplo, em como se entrelaçam o desenvolvimento cultural, o desenvolvimento educativo, o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social). Incluso a tradicional separação entre ciências tradicional e ciências dos homens desaparece criando postulados para uma epistemologia única capaz de reconstruir conjuntamente as bases interpretativas do homem e da sociedade (pensemos na indispensável visão integrada de desenvolvimento material e desenvolvimento imaterial de um território).
A crescente influência entre fenômenos distintos obriga as lógicas disciplinares consolidadas e ancoradas em análises intocáveis de romper a seguridade dos esquemas racionais e deixar que estes se contaminem por outros pontos de vista e nas trocas de conteúdo e métodos. A ciência auto-corretiva obriga a inverter a tendência das disciplinas estacadas e os setores incomunicáveis de uma mesma sociedade própria da epistemologia tradicional, que por sua vez defende uma cientificidade mais aberta à continuidade dos problemas e do acirramento entre os enfoques disciplinares. A condição necessária para que a investigação cientifica possa ser protagonista dos rumos do atual desenvolvimento planetário e a capacidade de por em tela de juízo os ordenamentos mono disciplinares consolidados e de construir redes disciplinarias.
A parte da mestiçagem disciplinaria, outro amplo campo em que as disciplinas separadas devem auto-revisarem é de contê-los as realidades tratadas, em que não pode terminar em marco desta potência. Em concreto, a perspectiva preponderante das disciplinas básicas das ciências humanas segue sendo a ocidental. Por suposto, não quero por em dúvida sua importância histórica. Por esta época de planetarização, em que as sociedades, as culturas e seus saberes está experimentando um giro de trezentos e senta graus, as ciências humanas não podem permitir nenhuma introdução entre as áreas de investigação e didática universitária, as dimensões planetárias do enfoque: desde a filosofia e a história, introduzindo as grandes filosofias das outras culturas e a história de outras grandes regiões do mundo; desde a literatura e a sociologia, como os importantes movimentos literários e artísticos de outras culturas e o estudo das sociedades de outros continentes.
Somos-nos limitados a apresentar primeiramente a grande questão de auto corrigibilidade da ciência e das disciplinas que aspiram a formar parte dela: é suficiente esta introdução para indicar uma linha de investigação que resulta esta insustentabilidade nas universidades e na prática que impera pelos programas de cooperação internacional e o desenvolvimento das sociedades e das culturas. As concepções de desenvolvimento do Sul do mundo fundadas na exportação pura e dura dos modelos de desenvolvimento que estão em plena crise no Norte do mundo, baseadas em exportação de recursos humanos e materiais do Sul, em beneficio do Norte, derivam de uma cultura cientifica e tecnológica que representa, si bem de forma mais sofisticada, uma neocolonização em beneficio dos grandes poderes econômicos e políticos e que aumenta a brecha entre países ricos e pobres, entre as elites e a pobreza, gerando graves desigualdades e tensão que poderia engendrar muita violência dentro da aldeia global. A formação dirigida há uma ciência completa e auto-corretiva tem uma importância fundamental para a construção de novos parâmetros de desenvolvimento sustentável.
A RACIONALIDADE EMPÁTICA
É este paradigma epistemológico de um enfoque cientifico planetário, inovador na investigação e no desenvolvimento, nos remete a dimensão de racionalidade empática, e as disciplinas que estudam as distintas dimensões do entorno, e aí mais, as disciplinas que estudam o ser humano e sua produção cultural, tangível e intangível. Há que enxergar bem esta postura para evitarem equívocos e mal entendidos.
Retrocedemos aos sabores do pensamento cientifico moderno. Se há de recordar o clima histórico em que nasceu a ciência em sua concepção moderna, chamada ciência demonstrativa, porque havia sinergia na competência investigadora baseada na própria experiência. A ciência moderna nasceu como reação frente aos tipos de conhecimento que havia gerado a cultura medieval. Pese a base do desenvolvimento muito dos signos que medem desde a queda do Império romano herda o legado do humanismo, e da cultura medieval o saber era difuso e tinha um forte caráter emocional. Não era mera causalidade que desse saber estivera controlado por uma ciência declarativa edificada sobre o pensamento filosófico dedutivo para uma elite intelectual e de conhecimento de sentido comum com um forte caráter emocional, eram, para o cuidado normal, das caras da mesma moeda. Em ambos os casos o saber adquiria conotações sagradas: o pensamento das elites intelectuais era intocável e inacessível, devia acobertar sim e repetir as crenças que, de alguma maneira, derivavam do mesmo pensamento latente (não duvidemos que a língua e os documentos fossem em latim, falado por muito pouca gente). Em este marco histórico apenas esboçava, o conhecimento doto que emanava de sua origem comum sagrado e autoritário: o profundo caráter moral do conhecimento. O conhecimento se dividia em saberes bom e em saberes do mal: o primeiro, colaborava bem com a existência futura e por tanto, se devia fomentar. O segundo colaborava com o mal e por tanto, se devia evitar sempre. O conhecimento da realidade tinha um valor ético em si e por tanto, alimentava em seu interior uma racionalidade com uma grande carga emotiva: e bem devia ser concebido e desenhado, e o mal não devia ser desejado, sendo temido e aleijado.
Com as trocas históricas do Humanismo e do Renascimento este paradigma entrou em crise. Qualquer oposição à censura do saber e ao saber pregado por ela se paga com a vida. A revolução copernicana do conhecimento cientifico moderno separou a categoria de verdade da categoria de justo: daí que surge o principio da razão objetiva como conhecimento neutro e postura neutra de investigação frente ao objeto estudado. O descobrimento do imenso poder da racionalidade humana, que podia explicar por si só cientificamente a realidade e – ainda mais – transformá-la como sabemos, a fomento e inchamento da razão em muitos signos e mitos da poderosa razão antes da razão positiva despir, como frente garantida de progresso e civilização. Sem substituir o mérito da razão experimental, que havia contribuído também com o nascimento do pensamento democrático e das democracias representativas, esta fé indiscutível na neutralidade da razão cientifica dando origens, como sabem, a tecnologia e as maquinas e ao domínio cada vez maior das maquinas na sociedade industrial, transformando o poder das máquinas e da razão e construindo um modelo de desenvolvimento baseado exclusivamente em quantidade: uma quantidade de bens de consumo, descartáveis e não renováveis que crêem necessário sem fim. São necessidades e bens produzidos por máquinas cada vez mais sofisticados e dominantes, para levar as máquinas imateriais capazes de pensarem pelos homens. Pela racionalidade cientifica moderna, como temos visto antes, ademais de todos os seus méritos indiscutíveis, tem também seu calcanhar de Aquiles, como ficou claro lá atrás: a racionalidade neutra não existe. O principio do conhecimento separado que examina o objeto excluindo o contexto é precisamente um ponto de vista que resulta discutir desde o momento em que se adota a perspectiva da realidade complexa. O enfoque auto-corretivo e complexo é o antídoto contra as distorções de uma realidade que, em nome de sua neutralidade, já perdido contato com o meio ambiente e alterado os equilíbrios da vida do planeta alcançado através de processos evolutivos que já durava milhões de anos. Pelo também perdido o contato com os homens e as mulheres reais, com seus problemas de sobrevivência, com a dignidade de suas vidas, com as injustiças e as infâmias mais cruéis que jamais havia cometido o homem em escala mundial.
Como pode o conhecimento cientifico responder a relação com a natureza, com a qualidade de vida, com a qualidade do desenvolvimento das sociedades locais, nacionais e transnacionais? A resposta se encontra nos estudos que o mesmo conhecimento cientifico está elaborando desde a algumas décadas sobre a natureza e a função do conhecimento na história nosso planeta e da humanidade: as ciências ecológicas, paleo-antropológicas, neurobiológicas e cognitivas mais avançadas nos dizem que o conhecimento humano mais completo é o que integra o conhecimento derivado do sentir com o conhecimento derivado do pensar: a idéia mais profunda dos significados da natureza, do homem, do mundo Não se consegue quando a razão se encerra em si mesma e se isola dos contextos, nem tão pouco quando as emoções e as paixões primam sobre a razão, sim quando a razão não expulsa de si mesma as vivencias emocionais, sim quando dialoga com elas para intentar conhecer os significados profundos da realidade, o que não pode encerrar em um esquema rígido e friamente elaborado, tem que ser manifestado na infinita riqueza da biodiversidade e dos sistemas ecosuntentáveis que vive no planeta. Então, o conhecimento cientifico se libera do equívoco da neutralidade – que de todas as maneiras não cumpria – a racionalidade objetiva, epígeno de uma razão que não a cumpria a promessa de resolver por si só os problemas fundamentais da existência do planeta e de oferecer por si só as chaves do progresso, do desenvolvimento das sociedades, do bem estar e da felicidade a todos os que precisam dela. Pelo contrario, esta nova ciência emergente, visível em tantos estudos de investigação e profissionalização das disciplinas mais variadas que participam de programas de cooperação e desenvolvimento em todos os lugares do mundo, recompõem da unidade de conhecimento sensível e pensante e se converte em racionalidade empática. Aqui não se pretende replantar novamente o dualismo da ciência demonstrativa, que desde a insolência da razão peca de compreensão paternalista. Nem muito menos se pretende retroceder ao largo dos signos da racionalidade pré-moderna, moralizante e censurada subordinada a vivencias emocionais irresolutas.
Trata-se, mais bem de reconstruir uma ética da ciência dentro desta, utilizando seus mesmos instrumentos epistemológicos e científicos, proteção sobre a natureza mesma do conhecimento e sobre seus significados e sua função na vida dos seres humanos e do resto do mundo. É um caminho, que pode utilizar o campo da cooperação internacional para poder criar uma epistemologia do conhecimento cientifico nem reducativamente racional nem pretensiosamente neutra, sim completa, auto-corrigiva e participativa. Por tanto, a ética cientifica, como poderíamos denominá-las também profissionalmente frente ao desenvolvimento, e não fundada no trabalho investigador e prático na relação tradicional entre sujeito investigador e objeto a estudar, si não em relação entre sujeitos autores de saberem distintos: só os saberes intercomunicados e abertos dos investigadores dos que sai ao encontro dos saberes e dos portadores de problemas e de interesses individuais e coletivos, porque também se reconhecem os lugares da natureza e os significados profundos que estes encerram. Desta maneira, tanto um como outro constroem saberes compartilhados e inovadores, capazes de desenvolver as sociedades e suas culturas. Assim, através da prática cientifica e profissional participativa em áreas do desenvolvimento, os investigadores e os cooperados terminam fazendo descobertas totalmente novas e fecundas com uma grande objetividade: as sociedades e as culturas que a racionalidade reducionista havia classificado como subdesenvolvida, emitindo um claro juízo discriminatório, demonstram que possuem saberes que, passa a ser menos sofisticados, são capazes de reconhecer e estabelecer relações equilibradas entre a comunidade humana e a natureza. São culturas, que, passa dos limites e das contradições de sua historia, é saber elaborar o lago dos signos uma boa síntese do sentir e do pensar (pensamos, por exemplo, nas culturas não violentas da Índia e as culturas cooperativas da África subsahariana) sem sofrer o antagonismo emoção-razão que marca a oposição entre as soluções da Idade média e da modernidade ocidental. Assim mesmo, em sua concepção epistemológica, as ciências empáticas, compassivas, participativas e holísticas também estão intentando recompor esta unidade sensível-pensante na mente investigadora e na unidade homem-natureza e desenvolvimento.
Em este caminho, que a voz cientifica e formativa, relacionam ciência e desenvolvimento que arrancamos estas analises enquanto uma resposta entendida como pista de trabalho, tanto para investigadores como para profissionais do desenvolvimento: o conhecimento indispensável para o desenvolvimento de um território não vem dado por saberes do racionalismo disciplinário que rechaça os saberes das culturas tradicionais, nem se limita aos saberes tradicionais que não logram relacionar com os saberes planetários do pensamento cientifico hegemônico. O conhecimento para o desenvolvimento do mundo atual, global e local as vez, demanda um novo estagio epistemológico da ciência: a ciência completa, auto-corrigiva e participativa, construída por investigadores e os profissionais da cooperação junto às comunidades humanas do Norte e do Sul. Esta ciência expressa o estado mais democrático e mais avançado do conhecimento humano em nosso tempo: os saberes que criam o desenvolvimento em um território não é propriedade exclusiva dos investigadores e dos cooperantes, conforme o modelo de saber cientifico moderno que ensina a propriedade exclusiva do experto. São os saberes de uma ciência que se põe ao próprio dialogando com os saberes locais e criando saberes endógenos ecosuntentáveis. Desta maneira, o poder do conhecimento, através da ciência livre e comprometida, envolve a sua natureza original: passa a ser elitista e separada a convertida em patrimônio de todo ser humano para construir sua auto-poesia e participar do desenvolvimento total da comunidade humana. Por conseguinte, os programas de desenvolvimento dos territórios não aplicam modelos idealizados com a racionalidade separada, sendo que, participando em busca de modelos internos a comunidade através da racionalidade completa e auto-corretiva e participativa, oferecem uma importante participação graça a participação de uma ciência planetária mais avançada e de um humanismo planetário inédito e atualmente indispensável.
Está certo que a comunidade cientifica e a cooperação ao desenvolvimento tem ante si, a utopia que deve guiar os projetos de internacionalização da investigação e da formação, como Interlinkplus, que pese as suas limitações, é uma rede de investigadores da universidade italiana e latino americana dedicada a estudar e a experimentar modelos de revalorização conjunta do potencial humano e do patrimônio territorial com o fim de conseguir um desenvolvimento de qualidade em todos os oceanos.
A este respeito, o projeto InterlinkPlus pode constituir uma valiosa ocasião para promover e por em marcha na universidades da América Central e do Caribe, com a colaboração de universidades européias, um programa estratégico de doutorado internacional que forme investigadores de alto nível no campo do desenvolvimento, tal como há pedidos distintos setores da região. Este programa poderia estar aberto a professores e profissionais e da cooperação.
REFERÊNCIAS
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
- De renúncias e tradições – a propósito de Maria da Conceição Tavares
Por Professor Cardozo*
A influência de Maria da Conceição Tavares na formação de parte dos economistas brasileiros é compreensível. Em uma profissão marcada pela falta de originalidade, carreira em que os estudantes são obrigados por semestres a fio à leitura de manuais estadunidenses de duvidosa qualidade intelectual, Conceição Tavares foi durante anos a voz da indignação contra o "papagaísmo", ou seja, este estranho hábito de divulgar no Brasil as "teorias" emanadas dos centros metropolitanos a despeito das sandices ou das hipóteses convencionais e falsas que são divulgadas como se fossem verdades científicas. Além disso, numa profissão marcada pela astúcia e o "bom mocismo" interesseiro, Conceição Tavares tinha – e mantém – um "temperamento" absolutamente indispensável tanto na política quanto na lúgubre academia. Todos nós sabemos que apesar da pompa com que é anunciada e repetida pelos meios de comunicação, a maior parte das hipóteses difundidas pelos economistas no país está destinada apenas e tão somente a justificação do subdesenvolvimento em nome de um futuro que jamais chegará. Maria da Conceição Tavares, matemática de formação, professora de várias gerações de economistas, figurou voz destoante, especialmente durante os anos da oposição progressista à ditadura. É justificável que tenha o reconhecimento que muitos, com freqüência, expressam; mas este reconhecimento não a torna, obviamente, imune a graves erros.
O ambiente atual no Brasil é um cenário excelente para os apologéticos de sempre. Há, de fato, um otimismo ingênuo muito propício para que os economistas convencionais sigam repetindo as consignas que retiram dos manuais de micro e macroeconomia sem ruborizar-se. Estes economistas ignoram o fato de que em todos os demais países do mundo, o pensamento dominante, ou seja, a neoclássico, recebeu um duro golpe com a erupção da crise capitalista em setembro de 2008. Incapaz de prever a crise mundial do capitalismo e atônita diante de seu desenrolar, os economistas neoclássicos se limitam a repetir suas verdades eternas ou simplesmente fazem de conta que não possuem responsabilidades sobre a crise global que queima riqueza e gera crescente desigualdade social. Mas não nos enganemos: a despeito da catástrofe, ainda estamos longe de um acerto de contas teórico e político com o pensamento dominante. A crise mundial, é verdade, não arrefeceu minimamente as convicções dos neoclássicos embora tenha vitalizado antigas ilusões keynesianas que em grande medida também alimentam o otimismo ingênuo sobre as possibilidades brasileiras na economia mundial.
Neste contexto, não deixa de ser uma surpresa a declaração recente de Conceição Tavares sobre as possibilidades do Brasil: "não tem centro e periferia como antes. Há países de desenvolvimento intermediário, entre os quais estamos." Para aqueles que não perderam a memória, percebe-se logo que se trata de uma ruptura com um dos pilares de sua formação, especialmente quando é anunciado por uma economista que sempre rendeu merecido tributo ao economista chileno Aníbal Pinto, um dos ícones do estruturalismo cepalino na América Latina. Na mesma linha e ainda com mais ousadia, Conceição Tavares chama atenção de todos nós para outra novidade que julgo ainda mais importante: "você não pode deixar de levar em conta que mudou a divisão internacional do trabalho. Paradoxalmente, não vejo muita gente mencionar isso. Houve uma mudança radical da divisão internacional do trabalho, na qual nós estamos bem colocados porque a gente exporta para todo mundo. E, em particular, no que diz respeito a matérias-primas, exportamos mais para a China do que para a Europa, por exemplo. Nunca exportamos matérias-primas para os EUA" (Folha de São Paulo, 12/09/2010). O Brasil está realmente bem colocado nesta mudança radical na divisão internacional do trabalho?
A elaboração teórica do chamado "sistema centro-periferia" foi uma das principais conquistas do pensamento cepalino na América Latina. Na prática, significou colocar por terra as teses ricardianas do famoso capítulo VII dos Princípios de Economia Política e Tributação, mais tarde resgatadas convenientemente pelos economistas universitários sob a mistificação da denominada "teoria das vantagens comparativas". De fato, a original contribuição do economista argentino Raul Prebisch sobre a "deterioração dos termos de troca" representou um passo adiante do pensamento crítico sob a apologética dos economistas da ordem que repetiam na periferia capitalista a mencionada "teoria da vantagem comparativa", destinada a consagrar a posição dos países latino-americanos na economia mundial como meros exportadores de matérias-primas e produtos agrícolas.
Contudo, se Prebisch foi brilhante na identificação do fenômeno constatando a diferença entre os preços dos produtos que a América Latina importava e a tendência de baixa dos produtos que exportava, seu esforço intelectual foi insuficiente na explicação do problema e apenas convencional na solução: a industrialização da periferia terminaria por fechar a brecha entre os preços, acreditava. Os marxistas latino-americanos descobriram logo que a saída cepalina era não somente falsa, mas, sobretudo, que terminaria por também contribuir para a justificação do subdesenvolvimento em que ainda estamos afundados. Foi neste terreno que surgiu a "teoria do intercâmbio desigual", em que André Gunder Frank (1964), Ruy Mauro Marini (1968), Arghiri Emannuel (1968) revelaram originalmente que a industrialização não seria capaz de tirar os países latino-americanos do subdesenvolvimento e da dependência. Mesmo assim, é preciso recordar que antes deles, um desconhecido polaco, membro da Escola de Frankfurt, "economista" entre filósofos, escreveu importante livro em 1929 em que o tema do intercambio desigual aparecia magistralmente estabelecido na tradição marxiana: La ley de la acumulación y el derrumbe del sistema capitalista, lamentavelmente sem tradução ao brasileiro.
A questão fundamental na formação intelectual do economista latino-americano residia neste ponto crucial, onde os críticos (marxistas ou não) indicavam o caráter polarizante do capitalismo, inexoravelmente dividido entre um centro desenvolvido e uma vasta periferia cuja característica fundamental era o nível de pobreza de sua população. O pensamento crítico buscava, obviamente, amparo em Marx e Engels. Foi Marx, ainda em 1848, quem se burlou dos defensores da ideologia do livre comércio afirmando que "se os defensores do livre comércio são incapazes de compreender como pode um país enriquecer-se a custa de outro, não necessitamos nos assombrar-nos de que os mesmos senhores compreendam ainda menos que, dentro de um país, uma classe se enriqueça a custa de outra." Seu inseparável amigo Engels também tocou no assunto muitos anos depois, quando Marx já não existia (1888); criticando a força ainda mais intensa da ideologia do livre comércio sob impulso do imperialismo inglês, Engels escreveu que "a consigna era, agora, o livre comércio. A tarefa imediata dos fabricantes ingleses e de seus porta-vozes, os economistas, era difundir a fé no evangelho do livre-comércio e criar um mundo em que a Inglaterra fosse o centro industrial e os demais uma periferia agrícola dependente" (Cursivas minhas, NDO).
Desde então, a crítica entre os economistas latino-americanos se dividiu: de um lado aqueles que, seguindo a tradição cepalina, indicavam a industrialização como o único caminho para superar a indesejável polarização existente no sistema capitalista. No Brasil, Celso Furtado foi indiscutivelmente o mais criativo e insistente defensor desta perspectiva (Brasil, construção interrompida, 1992). De outro lado, os marxistas indicavam que a dependência e o subdesenvolvimento somente poderiam ser superados com a revolução socialista e a ruptura com o sistema capitalista. Eram, em grande medida, alternativas radicalmente distintas, ainda que muitos observadores identificassem certas coincidências entre as opções.
Este "programa de pesquisa" está esgotado, foi superado pela realidade? Ignoravam os críticos do passado a possibilidade de uma "mudança radical na divisão internacional do trabalho" como anuncia agora Conceição Tavares? Definitivamente não! No posfácio (1971) à sua importante obra, La acumulación a escala mundial. Crítica a teoria del subdesarrollo, o egípcio Samir Amim reconhecia explicitamente os méritos do debate iniciado na América Latina e perguntava: o sistema mundial "caminha em direção à dicotomia cada vez mais crescente entre centro-periferia? Ou não é mais que uma etapa da evolução do sistema, e neste caso tende em direção a uma sorte de formação capitalista mundial homogênea?". Nos termos atuais: a existência de uma suposta "semi-periferia" teria dado por concluída a antiga polarização centro-periferia?
O sistema centro-periferia pode admitir a existência de um país "semi-periférico"? Esta hipótese tampouco é rigorosamente nova; foi aventada insistentemente por Immanuel Wallerstein, mas ele próprio tem consciência da dificuldade ou, creio, debilidade do conceito. Na sua obra, O moderno sistema mundial, Wallerstein (1980) indica que o elemento constante no que denomina "economia-mundo capitalista" é a divisão hierárquica do trabalho, na qual existe uma igualmente "constante variável localização da atividade econômica". O caso historicamente relevante para a "análise do sistema-mundo" é o sueco, no século XVII, que segundo esta interpretação logrou sair da periferia sistêmica e acomodar-se à condição razoavelmente confortável de semi-periferia. Contudo, as condições suecas eram reconhecidamente excepcionais e de impossível generalização para todo o sistema, especialmente para os países latino-americanos. Ademais, enquanto Suécia praticou o mercantilismo para sair da periferia, as classes dominantes dos países latino-americanos se curvam diante da lei do valor apostando na "liberalização". Finalmente, nunca é demais recordar: a Suécia é um país europeu, ou seja, situado no centro da "economia-mundo".
Muitos anos após a publicação de sua trilogia iniciada em 1974, é o mesmo Wallerstein quem em entrevista realizada em 1999 reconhece que as condições necessárias para um país avançar em direção à semi-periferia – conceito que incluiria tanto o Brasil quanto o México e, talvez mais surpreendente, a China! – são muitas e não são fáceis. Na mesma oportunidade Wallerstein indica que "dentro da lógica do sistema" e para manter a condição de semi-periferia o Brasil teria que investir recursos significativos no âmbito militar e, claro, assegurar, durante décadas, superioridade na produção de mercadorias em relação aos seus competidores. É claro que os defensores desta linha de interpretação podem também alegar aos que insistem na dicotomia centro-periferia que acomodar Brasil e Honduras como "países periféricos" tampouco oferece a precisão conceitual necessária para captar a especificidade brasileira, posto que o "gigante do sul" possui extraordinárias vantagens em relação ao pequeno país centro-americano na economia mundial. Como estabelecer uma linha divisória mais sólida?
Os marxistas identificaram o ponto decisivo do sistema centro-periferia: a transferência de valor. Ao longo da história do capitalismo se pôde observar que a característica essencial do sistema é a reprodução da desigualdade que impede qualquer desejo de homogeneização no capitalismo. A ruralizarão da indústria no interior do país, o deslocamento de atividades produtivas sob controle das empresas multinacionais para a zona periférica são exemplos de mecanismos que foram essenciais para o processo ininterrupto de acumulação. São movimentos necessários para manter a troca desigual. Até mesmo Wallerstein reconheceu que embora a troca desigual represente uma prática antiga, somente quinhentos anos após a consolidação do que ele denomina "capitalismo histórico" foi desvelada de forma sistemática pelos oponentes do sistema.
Foi o pensamento crítico latino-americano o responsável por esta conquista teórica, indiscutivelmente. Em termos marxianos: a transferência de valor mantém a vitalidade do sistema, para a qual requer não somente deslocamentos espaciais da produção, mas, sobretudo, níveis elevados de exploração da força de trabalho e, especialmente, a super-exploração da força de trabalho. É aqui que Honduras e Brasil se encontram. Enfim, o esforço para captar a especificidade de um país qualquer ou os movimentos inerentes a acumulação mundializada não pode ignorar a lógica totalizante inerente ao sistema capitalista.
A possibilidade de uma nova configuração da divisão internacional de trabalho é também uma novidade como anuncia Conceição Tavares? Está efetivamente ocorrendo? O Brasil está "bem colocado" nesta nova situação?
O tema tampouco é novo se recordamos um texto não tão antigo de Ruy Mauro Marini (2000), publicado logo após seu precoce desaparecimento. Marini reflexiona sobre as tendências da chamada globalização, indicando a possibilidade ou o projeto de uma nova divisão internacional do trabalho aberta pela plena vigência da lei do valor em escala planetária. O texto escrito na década de noventa, se insurgia contra a hegemonia então absoluta do "neoliberalismo" na América Latina, e indicava que os países centrais apostavam na nova reconfiguração da divisão internacional de trabalho necessária para aproveitar duas vantagens estratégicas que possuíam na economia mundial. A primeira vantagem decorria da "superioridade em matéria de pesquisa e desenvolvimento" em que as potências exercem o monopólio tecnológico. A segunda estaria dada pelo controle que os países centrais possuem no processo de transferência das atividades industriais para a periferia capitalista, especialmente aquelas menos intensivas em conhecimento. Em qualquer caso, afirmou Marini, o concerto estaria construído de tal forma que as economias nacionais periféricas não lograriam jamais a condição de uma economia nacional integrada.
É fácil supor que nem mesmo o mais otimista dos economistas brasileiros se atreveria a afirmar que estamos caminhando na direção de uma economia nacionalmente integrada, capaz de sair da periferia.
Esta é a razão pela qual verificamos o elogio à economia exportadora, tão recorrente mesmo entre economistas de boa formação. Assim como a economia política inglesa sabe desde William Petty que um país pode exportar muito e empobrecer, o pensamento crítico sabe que um país pode destinar suas exportações para muitos países e não mudar um milímetro sua posição na divisão internacional do trabalho. O fato de o Brasil destinar aos Estados Unidos apenas uma parte pequena de suas exportações não muda em absolutamente nada a posição do país na adversa divisão internacional do trabalho. De fato, o Brasil exporta produtos agrícolas e minerais para muitos países do mundo sem que supere o subdesenvolvimento e a dependência; ao contrário, se pode afirmar que esta é uma das razões pelas quais seguimos no atoleiro do subdesenvolvimento.
Portanto, a existência de países de "desenvolvimento intermediário", situação na qual o Brasil – segundo a opinião de Conceição Tavares – ocuparia, não figura precisamente como novidade histórica e/ou teórica. Porém, anunciado fora de uma explicação totalizante (sistema centro-periferia), pode parecer simples apologia do subdesenvolvimento e tentativa de dar legitimidade teórica (base científica) para o otimismo ingênuo que segue inibindo a reflexão crítica necessária para mudar radicalmente o país. Após a grande crise mundial de setembro de 2008, ocorreu importante mudança na correlação de forças em escala planetária, que permite reformas mais avançadas em favor das classes subalternas, inclusive no Brasil. Mas para aqueles que pensam de outra maneira – que as condições políticas para lutas mais avançadas não existem – o que ganharemos com a renúncia no terreno teórico?
É sedutor – e talvez parte do otimismo que se abateu sobre o Brasil – pensar como José Luis Fiori, para quem estamos vivendo momentos de uma "revolução intelectual", em que "algumas idéias e teorias de esquerda e direita... já não dão conta das transformações do continente" latino-americano (Valor, 29/09/2010). No que se refere à esquerda, quiçá seria então necessário admitir que a antiga concepção centro-periferia foi finalmente superada pela realidade, pelo menos para nós, brasileiros. Neste acaso, também é necessário reconhecer que não há originalidade no movimento. Enfim, no propósito de legitimar um dos bandos na luta política eleitoral (conjuntural) que o país atravessa, cada um dirá, com forma própria e no tempo adequado, um brado já conhecido: "esqueçam o que escrevi".
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*Jeorge Luiz Cardozo é professor mestrando da Faculdade Dom Luiz/Dom PedroII, Assessor Técnico da Secretaria Municipal da Educação de Salvador.
A influência de Maria da Conceição Tavares na formação de parte dos economistas brasileiros é compreensível. Em uma profissão marcada pela falta de originalidade, carreira em que os estudantes são obrigados por semestres a fio à leitura de manuais estadunidenses de duvidosa qualidade intelectual, Conceição Tavares foi durante anos a voz da indignação contra o "papagaísmo", ou seja, este estranho hábito de divulgar no Brasil as "teorias" emanadas dos centros metropolitanos a despeito das sandices ou das hipóteses convencionais e falsas que são divulgadas como se fossem verdades científicas. Além disso, numa profissão marcada pela astúcia e o "bom mocismo" interesseiro, Conceição Tavares tinha – e mantém – um "temperamento" absolutamente indispensável tanto na política quanto na lúgubre academia. Todos nós sabemos que apesar da pompa com que é anunciada e repetida pelos meios de comunicação, a maior parte das hipóteses difundidas pelos economistas no país está destinada apenas e tão somente a justificação do subdesenvolvimento em nome de um futuro que jamais chegará. Maria da Conceição Tavares, matemática de formação, professora de várias gerações de economistas, figurou voz destoante, especialmente durante os anos da oposição progressista à ditadura. É justificável que tenha o reconhecimento que muitos, com freqüência, expressam; mas este reconhecimento não a torna, obviamente, imune a graves erros.
O ambiente atual no Brasil é um cenário excelente para os apologéticos de sempre. Há, de fato, um otimismo ingênuo muito propício para que os economistas convencionais sigam repetindo as consignas que retiram dos manuais de micro e macroeconomia sem ruborizar-se. Estes economistas ignoram o fato de que em todos os demais países do mundo, o pensamento dominante, ou seja, a neoclássico, recebeu um duro golpe com a erupção da crise capitalista em setembro de 2008. Incapaz de prever a crise mundial do capitalismo e atônita diante de seu desenrolar, os economistas neoclássicos se limitam a repetir suas verdades eternas ou simplesmente fazem de conta que não possuem responsabilidades sobre a crise global que queima riqueza e gera crescente desigualdade social. Mas não nos enganemos: a despeito da catástrofe, ainda estamos longe de um acerto de contas teórico e político com o pensamento dominante. A crise mundial, é verdade, não arrefeceu minimamente as convicções dos neoclássicos embora tenha vitalizado antigas ilusões keynesianas que em grande medida também alimentam o otimismo ingênuo sobre as possibilidades brasileiras na economia mundial.
Neste contexto, não deixa de ser uma surpresa a declaração recente de Conceição Tavares sobre as possibilidades do Brasil: "não tem centro e periferia como antes. Há países de desenvolvimento intermediário, entre os quais estamos." Para aqueles que não perderam a memória, percebe-se logo que se trata de uma ruptura com um dos pilares de sua formação, especialmente quando é anunciado por uma economista que sempre rendeu merecido tributo ao economista chileno Aníbal Pinto, um dos ícones do estruturalismo cepalino na América Latina. Na mesma linha e ainda com mais ousadia, Conceição Tavares chama atenção de todos nós para outra novidade que julgo ainda mais importante: "você não pode deixar de levar em conta que mudou a divisão internacional do trabalho. Paradoxalmente, não vejo muita gente mencionar isso. Houve uma mudança radical da divisão internacional do trabalho, na qual nós estamos bem colocados porque a gente exporta para todo mundo. E, em particular, no que diz respeito a matérias-primas, exportamos mais para a China do que para a Europa, por exemplo. Nunca exportamos matérias-primas para os EUA" (Folha de São Paulo, 12/09/2010). O Brasil está realmente bem colocado nesta mudança radical na divisão internacional do trabalho?
A elaboração teórica do chamado "sistema centro-periferia" foi uma das principais conquistas do pensamento cepalino na América Latina. Na prática, significou colocar por terra as teses ricardianas do famoso capítulo VII dos Princípios de Economia Política e Tributação, mais tarde resgatadas convenientemente pelos economistas universitários sob a mistificação da denominada "teoria das vantagens comparativas". De fato, a original contribuição do economista argentino Raul Prebisch sobre a "deterioração dos termos de troca" representou um passo adiante do pensamento crítico sob a apologética dos economistas da ordem que repetiam na periferia capitalista a mencionada "teoria da vantagem comparativa", destinada a consagrar a posição dos países latino-americanos na economia mundial como meros exportadores de matérias-primas e produtos agrícolas.
Contudo, se Prebisch foi brilhante na identificação do fenômeno constatando a diferença entre os preços dos produtos que a América Latina importava e a tendência de baixa dos produtos que exportava, seu esforço intelectual foi insuficiente na explicação do problema e apenas convencional na solução: a industrialização da periferia terminaria por fechar a brecha entre os preços, acreditava. Os marxistas latino-americanos descobriram logo que a saída cepalina era não somente falsa, mas, sobretudo, que terminaria por também contribuir para a justificação do subdesenvolvimento em que ainda estamos afundados. Foi neste terreno que surgiu a "teoria do intercâmbio desigual", em que André Gunder Frank (1964), Ruy Mauro Marini (1968), Arghiri Emannuel (1968) revelaram originalmente que a industrialização não seria capaz de tirar os países latino-americanos do subdesenvolvimento e da dependência. Mesmo assim, é preciso recordar que antes deles, um desconhecido polaco, membro da Escola de Frankfurt, "economista" entre filósofos, escreveu importante livro em 1929 em que o tema do intercambio desigual aparecia magistralmente estabelecido na tradição marxiana: La ley de la acumulación y el derrumbe del sistema capitalista, lamentavelmente sem tradução ao brasileiro.
A questão fundamental na formação intelectual do economista latino-americano residia neste ponto crucial, onde os críticos (marxistas ou não) indicavam o caráter polarizante do capitalismo, inexoravelmente dividido entre um centro desenvolvido e uma vasta periferia cuja característica fundamental era o nível de pobreza de sua população. O pensamento crítico buscava, obviamente, amparo em Marx e Engels. Foi Marx, ainda em 1848, quem se burlou dos defensores da ideologia do livre comércio afirmando que "se os defensores do livre comércio são incapazes de compreender como pode um país enriquecer-se a custa de outro, não necessitamos nos assombrar-nos de que os mesmos senhores compreendam ainda menos que, dentro de um país, uma classe se enriqueça a custa de outra." Seu inseparável amigo Engels também tocou no assunto muitos anos depois, quando Marx já não existia (1888); criticando a força ainda mais intensa da ideologia do livre comércio sob impulso do imperialismo inglês, Engels escreveu que "a consigna era, agora, o livre comércio. A tarefa imediata dos fabricantes ingleses e de seus porta-vozes, os economistas, era difundir a fé no evangelho do livre-comércio e criar um mundo em que a Inglaterra fosse o centro industrial e os demais uma periferia agrícola dependente" (Cursivas minhas, NDO).
Desde então, a crítica entre os economistas latino-americanos se dividiu: de um lado aqueles que, seguindo a tradição cepalina, indicavam a industrialização como o único caminho para superar a indesejável polarização existente no sistema capitalista. No Brasil, Celso Furtado foi indiscutivelmente o mais criativo e insistente defensor desta perspectiva (Brasil, construção interrompida, 1992). De outro lado, os marxistas indicavam que a dependência e o subdesenvolvimento somente poderiam ser superados com a revolução socialista e a ruptura com o sistema capitalista. Eram, em grande medida, alternativas radicalmente distintas, ainda que muitos observadores identificassem certas coincidências entre as opções.
Este "programa de pesquisa" está esgotado, foi superado pela realidade? Ignoravam os críticos do passado a possibilidade de uma "mudança radical na divisão internacional do trabalho" como anuncia agora Conceição Tavares? Definitivamente não! No posfácio (1971) à sua importante obra, La acumulación a escala mundial. Crítica a teoria del subdesarrollo, o egípcio Samir Amim reconhecia explicitamente os méritos do debate iniciado na América Latina e perguntava: o sistema mundial "caminha em direção à dicotomia cada vez mais crescente entre centro-periferia? Ou não é mais que uma etapa da evolução do sistema, e neste caso tende em direção a uma sorte de formação capitalista mundial homogênea?". Nos termos atuais: a existência de uma suposta "semi-periferia" teria dado por concluída a antiga polarização centro-periferia?
O sistema centro-periferia pode admitir a existência de um país "semi-periférico"? Esta hipótese tampouco é rigorosamente nova; foi aventada insistentemente por Immanuel Wallerstein, mas ele próprio tem consciência da dificuldade ou, creio, debilidade do conceito. Na sua obra, O moderno sistema mundial, Wallerstein (1980) indica que o elemento constante no que denomina "economia-mundo capitalista" é a divisão hierárquica do trabalho, na qual existe uma igualmente "constante variável localização da atividade econômica". O caso historicamente relevante para a "análise do sistema-mundo" é o sueco, no século XVII, que segundo esta interpretação logrou sair da periferia sistêmica e acomodar-se à condição razoavelmente confortável de semi-periferia. Contudo, as condições suecas eram reconhecidamente excepcionais e de impossível generalização para todo o sistema, especialmente para os países latino-americanos. Ademais, enquanto Suécia praticou o mercantilismo para sair da periferia, as classes dominantes dos países latino-americanos se curvam diante da lei do valor apostando na "liberalização". Finalmente, nunca é demais recordar: a Suécia é um país europeu, ou seja, situado no centro da "economia-mundo".
Muitos anos após a publicação de sua trilogia iniciada em 1974, é o mesmo Wallerstein quem em entrevista realizada em 1999 reconhece que as condições necessárias para um país avançar em direção à semi-periferia – conceito que incluiria tanto o Brasil quanto o México e, talvez mais surpreendente, a China! – são muitas e não são fáceis. Na mesma oportunidade Wallerstein indica que "dentro da lógica do sistema" e para manter a condição de semi-periferia o Brasil teria que investir recursos significativos no âmbito militar e, claro, assegurar, durante décadas, superioridade na produção de mercadorias em relação aos seus competidores. É claro que os defensores desta linha de interpretação podem também alegar aos que insistem na dicotomia centro-periferia que acomodar Brasil e Honduras como "países periféricos" tampouco oferece a precisão conceitual necessária para captar a especificidade brasileira, posto que o "gigante do sul" possui extraordinárias vantagens em relação ao pequeno país centro-americano na economia mundial. Como estabelecer uma linha divisória mais sólida?
Os marxistas identificaram o ponto decisivo do sistema centro-periferia: a transferência de valor. Ao longo da história do capitalismo se pôde observar que a característica essencial do sistema é a reprodução da desigualdade que impede qualquer desejo de homogeneização no capitalismo. A ruralizarão da indústria no interior do país, o deslocamento de atividades produtivas sob controle das empresas multinacionais para a zona periférica são exemplos de mecanismos que foram essenciais para o processo ininterrupto de acumulação. São movimentos necessários para manter a troca desigual. Até mesmo Wallerstein reconheceu que embora a troca desigual represente uma prática antiga, somente quinhentos anos após a consolidação do que ele denomina "capitalismo histórico" foi desvelada de forma sistemática pelos oponentes do sistema.
Foi o pensamento crítico latino-americano o responsável por esta conquista teórica, indiscutivelmente. Em termos marxianos: a transferência de valor mantém a vitalidade do sistema, para a qual requer não somente deslocamentos espaciais da produção, mas, sobretudo, níveis elevados de exploração da força de trabalho e, especialmente, a super-exploração da força de trabalho. É aqui que Honduras e Brasil se encontram. Enfim, o esforço para captar a especificidade de um país qualquer ou os movimentos inerentes a acumulação mundializada não pode ignorar a lógica totalizante inerente ao sistema capitalista.
A possibilidade de uma nova configuração da divisão internacional de trabalho é também uma novidade como anuncia Conceição Tavares? Está efetivamente ocorrendo? O Brasil está "bem colocado" nesta nova situação?
O tema tampouco é novo se recordamos um texto não tão antigo de Ruy Mauro Marini (2000), publicado logo após seu precoce desaparecimento. Marini reflexiona sobre as tendências da chamada globalização, indicando a possibilidade ou o projeto de uma nova divisão internacional do trabalho aberta pela plena vigência da lei do valor em escala planetária. O texto escrito na década de noventa, se insurgia contra a hegemonia então absoluta do "neoliberalismo" na América Latina, e indicava que os países centrais apostavam na nova reconfiguração da divisão internacional de trabalho necessária para aproveitar duas vantagens estratégicas que possuíam na economia mundial. A primeira vantagem decorria da "superioridade em matéria de pesquisa e desenvolvimento" em que as potências exercem o monopólio tecnológico. A segunda estaria dada pelo controle que os países centrais possuem no processo de transferência das atividades industriais para a periferia capitalista, especialmente aquelas menos intensivas em conhecimento. Em qualquer caso, afirmou Marini, o concerto estaria construído de tal forma que as economias nacionais periféricas não lograriam jamais a condição de uma economia nacional integrada.
É fácil supor que nem mesmo o mais otimista dos economistas brasileiros se atreveria a afirmar que estamos caminhando na direção de uma economia nacionalmente integrada, capaz de sair da periferia.
Esta é a razão pela qual verificamos o elogio à economia exportadora, tão recorrente mesmo entre economistas de boa formação. Assim como a economia política inglesa sabe desde William Petty que um país pode exportar muito e empobrecer, o pensamento crítico sabe que um país pode destinar suas exportações para muitos países e não mudar um milímetro sua posição na divisão internacional do trabalho. O fato de o Brasil destinar aos Estados Unidos apenas uma parte pequena de suas exportações não muda em absolutamente nada a posição do país na adversa divisão internacional do trabalho. De fato, o Brasil exporta produtos agrícolas e minerais para muitos países do mundo sem que supere o subdesenvolvimento e a dependência; ao contrário, se pode afirmar que esta é uma das razões pelas quais seguimos no atoleiro do subdesenvolvimento.
Portanto, a existência de países de "desenvolvimento intermediário", situação na qual o Brasil – segundo a opinião de Conceição Tavares – ocuparia, não figura precisamente como novidade histórica e/ou teórica. Porém, anunciado fora de uma explicação totalizante (sistema centro-periferia), pode parecer simples apologia do subdesenvolvimento e tentativa de dar legitimidade teórica (base científica) para o otimismo ingênuo que segue inibindo a reflexão crítica necessária para mudar radicalmente o país. Após a grande crise mundial de setembro de 2008, ocorreu importante mudança na correlação de forças em escala planetária, que permite reformas mais avançadas em favor das classes subalternas, inclusive no Brasil. Mas para aqueles que pensam de outra maneira – que as condições políticas para lutas mais avançadas não existem – o que ganharemos com a renúncia no terreno teórico?
É sedutor – e talvez parte do otimismo que se abateu sobre o Brasil – pensar como José Luis Fiori, para quem estamos vivendo momentos de uma "revolução intelectual", em que "algumas idéias e teorias de esquerda e direita... já não dão conta das transformações do continente" latino-americano (Valor, 29/09/2010). No que se refere à esquerda, quiçá seria então necessário admitir que a antiga concepção centro-periferia foi finalmente superada pela realidade, pelo menos para nós, brasileiros. Neste acaso, também é necessário reconhecer que não há originalidade no movimento. Enfim, no propósito de legitimar um dos bandos na luta política eleitoral (conjuntural) que o país atravessa, cada um dirá, com forma própria e no tempo adequado, um brado já conhecido: "esqueçam o que escrevi".
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*Jeorge Luiz Cardozo é professor mestrando da Faculdade Dom Luiz/Dom PedroII, Assessor Técnico da Secretaria Municipal da Educação de Salvador.
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