segunda-feira, 24 de outubro de 2011

- Cristina é reeleita com quase 55% dos votos

 por professor Cardozo

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, foi reeleita com uma proporção de votos que oscilaria entre 53% e 55% dos votos, segundo bocas de urna divulgadas na noite de hoje. Desta forma, Cristina, candidata da Frente pela Vitória, uma sublegenda do Partido Justicialista (Peronista), obteve um novo mandato presidencial que concluirá em 2015. "Nunca fui convencida nem serei", afirmou Cristina Kirchner, perante seus militantes e assessores, que bradavam seu nome no auditório do Hotel Intercontinental, quartel-general da campanha presidencial.

"Mas, devo agradecer a ele, que foi o fundador desta vitória", acrescentou em referência a seu marido e ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007), que morreu em outubro do ano passado. "Não falo dele como marido...falo dele como quadro político!", exclamou a presidente reeleita, que também afirmou que não possui "ambição alguma" e que somente age por "amor" aos argentinos.

Cristina foi parabenizada pelos presidentes sul-americanos por sua vitória nas urnas. "Recebi um telefonema fraternal da companheira Dilma Rousseff", contou com voz embargada.

Cristina, respaldada por um heterogêneo grupo político que aglutina intelectuais de vanguarda e coronelismo do interior, junto com sindicalistas que estão no poder há décadas, economistas neoliberais recentemente conversos ao keynesianismo e organismos de defesa dos direitos humanos - todos amalgamados sob as figuras simbólicas de Juan Domingo Perón e Evita Perón - também ficaria com a maioria do Parlamento e dos governos provinciais.

Recorde - A proporção de votos obtidos por Cristina supera o recorde de Raúl Alfonsín reeleito com 51,7% em 1983, ano da volta da democracia. Em segundo lugar estaria o socialista Hermes Binner, um dos poucos governadores não envolvidos em escândalos de corrupção, com 16% dos votos.

O terceiro posto ficaria com Ricardo Alfonsín, filho do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89), candidato da União Cívica Radical (UCR), com 10%. O quarto lugar seria do peronista dissidente Alberto Rodríguez Saá, que fez campanha prometendo internet wi-fi grátis em toda a Argentina, com 8%. Em quinto lugar estava o ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), candidato de outra facão do peronismo dissidente, com 6%.

Luto - Cristina votou na cidade de Rio Gallegos, capital da província de Santa Cruz, onde Kirchner foi enterrado no ano passado. Após votar, ostentando um vestido de luto e chorando, declarou que estava "emocionada", já que era "a mulher de um homem que marcou definitivamente a vida política da Argentina". Na quinta-feira a presidente participará, nessa cidade, do segundo funeral de Kirchner, cujo caixão sairá da modesta tumba familiar, onde esteve provisoriamente durante este ano, e será transferido com toda a pompa para um monumental mausoléu de mármore e granito de 11 metros de altura que pode ser visto a vários quarteirões de distância.

Escândalos - Os analistas destacam que, tal como ocorreu com o presidente Carlos Menem (1989-99), reeleito em 1995 em meio a uma série de casos de corrupção, a candidatura de Cristina não foi abalada pelas centenas de escândalos que envolvem integrantes de seu governo. Sua intenção de voto tampouco caiu apesar das suspeitas de enriquecimento ilícito da presidente, cuja fortuna teria aumentado 930% nos últimos oito anos.
Os analistas destacam que tanto em 1995 como em 2011 existia entusiasmo com as políticas econômicas dos governos que disputavam a reeleição.

Manuel Mora y Araújo, diretor da consultoria Ipsos-Mora y Araujo e professor da Universidade Torcuato Di Tella, sustenta que, ao contrário de 1995, a oposição atualmente está muito "fragmentada": "a maioria das pessoas pensam que a continuidade do governo em exercício é a melhor opção. E desta forma, quando predomina este sentimento, os eventuais aspectos negativos atribuídos ao governo e seus integrantes passam para um segundo plano".

Sylvina Walger, autora de "Cristina, de parlamentar combativa a presidente fashion", biografia não-autorizada da presidente que lhe valeu as portas fechadas nos meios de comunicação alinhados com o governo, resume ao Estado: "é a tal filosofia do rouba mas faz. Infelizmente, é assim".

A Argentina está entre os países com mais corrupção no planeta, segundo o ranking da ONG Transparência Internacional. Neste ano o país ocupou o posto número 105, a mesma posição que tinha em 2007, ano da posse de Cristina.

- La Paz faz acordo com indígenas sobre estrada boliviana

 por professor Cardozo

O governo boliviano e representantes dos manifestantes indígenas chegaram a um acordo nesta segunda-feira sobre a construção de uma estrada que corta uma reserva. O acordo encerrou dos meses de protestos que prejudicaram o apoio ao presidente Evo Morales.

Morales anunciou na sexta-feira o cancelamento do controverso projeto para a construção de uma estrada que cortaria a reserva natural Tipnis, região central da Bolívia, mas os manifestantes ainda tinham outras 15 exigências que queriam discutir.

O ministro de Comunicações Ivan Canelas anunciou o acordo com todos os manifestantes após uma maratona de negociações que foi encerrada na madrugada desta segunda-feira.

A extensão das negociações permitiram que "todos os pontos fossem resolvidos com e os prazos estabelecidos", disse Fernando Vargas, líder dos manifestantes.

O projeto, que tem financiamento brasileiro, seria parte de uma rede que vai ligar a Bolívia tanto ao oceano Pacífico, pelo Chile, quanto ao Atlântico, pelo Brasil. As informações são da Dow Jones.

- Líbia começa a formar governo, após morte de Kadafi


por professor Cardozo


Os novos líderes da Líbia iniciaram nesta segunda-feira a difícil tarefa de formar um governo de unidade interino, após 42 anos de ditadura de Muamar Kadafi, prometendo uma administração orientada pelas leis islâmicas. "Hoje começamos a nos preparar para uma nova fase, a fase da liberação, a fase em que iremos planejar e trabalhar duro pelo futuro da Líbia", afirmou Abdel Hafiz Ghoga, vice-presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT).

"Vamos começar a trabalhar na adoção da Constituição", afirmou Ghoga no fim do domingo, após ser decretada a "liberação" da Líbia do regime de Kadafi, em uma cerimônia com dezenas de milhares de pessoas em Benghazi, no leste do país, onde começou o levante contra o ditador há oito meses.

A declaração é feita em meio à controvérsia em torno das circunstâncias da morte de Kadafi, após ele ser capturado com vida em sua cidade natal, Sirta, na quinta-feira. A Grã-Bretanha afirmou que o incidente "maculou" o CNT.

O CNT prevê a formação de um governo interino em um mês e eleições para uma Assembleia Constituinte dentro de oito meses. Será a primeira eleição livre no país em mais de quatro décadas.

Haverá eleições parlamentares e presidenciais dentro de um ano após esse voto para a Constituinte, ou dentro de 20 meses após a declaração deste domingo.

O líder do CNT, Mustafa Abdel Jalil, insistiu que a lei muçulmana (sharia) prevalecerá. "Como um país islâmico, adotamos a Sharia como nossa lei principal", disse Abdel Jalil em Benghazi.

O primeiro-ministro interino, Mahmoud Jibril, disse que a formação do novo governo deve ocorrer "dentro de uma semana a um mês". "Isso pode levar mais ou menos", disse ele a repórteres, durante o Fórum Econômico Mundial na Jordânia. Segundo ele, o CNT será então dissolvido.

Abdel Jalil disse à rede Al-Jazeera que há uma investigação em andamento sobre as circunstâncias da morte de Kadafi. Vídeos de celulares mostravam o ex-ditador vivo após a captura, mas líderes do CNT afirmam que ele foi morto por um tiro na cabeça durante um tiroteio. As informações são da Dow Jones.

- Kassab não vê espaço para PSD em reforma ministerial


por professor Cardozo


O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, afirmou hoje que não tem "nenhuma expectativa" de que o PSD ganhe espaço na eventual reforma ministerial esperada para 2012. Como presidente nacional da nova sigla, Kassab ressaltou que o PSD é "independente", mas ofereceu ajuda ao governo federal em propostas ou projetos que estejam de acordo com as diretrizes da nova legenda.

"O partido é independente. O governo federal sabe que poderá contar conosco em todos os projetos, em todas as ações que tenham vinculação com o nosso programa partidário", afirmou. Ele disse ainda que não espera que a sigla integre o governo federal em reformas administravas posteriores ao próximo ano.

Kassab participou hoje de evento de apresentação do novo modelo de trólebus para a renovação da frota da capital paulista. A crise no Ministério do Esporte tem aumentado a expectativa dos partidos da base aliada em torno de uma reforma ministerial. As eventuais mudanças, previstas para janeiro de 2012, já geram a insatisfação de siglas como PDT, PP e PC do B, ameaçadas de per perder espaço no primeiro escalão da Esplanada dos Ministérios. A presidente Dilma Rousseff, segundo membros do Palácio do Planalto, deve levar em conta o tamanho dos partidos para a redistribuição de cargos e orçamentos.

No evento, Kassab ressaltou ainda que é "natural" que a Câmara dos Deputados promova uma redistribuição de espaço após a criação do PSD. Ele defendeu que a bancada da nova sigla tenha os seus direitos assegurados para que possa atuar. "Essa é uma questão parlamentar que será coordenada por nossa bancada, e é evidente que isso deverá acontecer", afirmou. "É evidente que essa nova bancada terá os seus direitos para que possa funcionar." O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), já destacou a necessidade de uma reconfiguração do espaço, que envolveria tanto a realocação de gabinetes como a titularidade em comissões e relatorias.

- PC do B triplica filiados com PT no poder


 por professor Cardozo


A entrada do Partido Comunista do Brasil (PC do B) no século 21 foi marcada pela contradição, a palavra preferida de seus dirigentes quando se referem ao capitalismo, segundo eles "agonizante", ao jogo de poder e aos parceiros das alianças que o levaram para o governo e até lhe reservaram um ministério, o do Esporte. Ministério que na última semana foi alvo de denúncias de irregularidades na distribuição de verbas, aparelhamento por parte de entidades de seu círculo íntimo e supostas cobranças de propinas.

Nesse processo de contradição política e ideológica, ao mesmo tempo em que o PC do B mantinha em seu estatuto a doutrina marxista-leninista (artigo 1.º) como princípio de tudo, adaptava-se rápida e facilmente aos tempos da social-democracia do PT. A mesma social-democracia que usa o "welfare state" (Estado do bem-estar social), sistema criado nos países escandinavos justamente para brecar o avanço das revoluções comunistas.

O estatuto do PC do B mostra que o partido dá importância vital à ocupação dos cargos públicos, o que pode servir de explicação para o aparelhamento dos órgãos que ocupa. Diz o artigo 59.º do documento que os cargos eletivos ou comissionados dos governos dos quais a legenda participe constituem "importante frente de trabalho e está a serviço do projeto político partidário, segundo norma própria do Comitê Central". Os mandatos eletivos alcançados pela legenda do PC do B pertencem ao coletivo partidário soberanamente.

Entre os deveres dos militantes do PC do B, está a obrigatoriedade de destinar, pelo menos, 1% do salário mensal ao partido. Os que detêm cargos eletivos ou em comissão pagam contribuições especiais a serem especificadas pelos órgãos partidários. Embora o PC do B não revele o montante, há a informação de que, nesses casos, pode chegar a 40% do salário.

Ainda na clandestinidade, no fim dos anos 70 e início dos 80, o PC do B atuou dentro do MDB e PMDB, na ala denominada "Movimento Popular".

Depois da redemocratização, tornou-se um parceiro avançado de Luiz Inácio Lula da Silva, tanto nas derrotas quanto nas vitórias do ex-presidente, sempre numa aliança de "apoio crítico". Na base da coligação nas eleições proporcionais - ora com o PMDB, ora com o PT e outras legendas de centro-esquerda -, triplicou sua bancada de deputados desde 1985, ano do registro definitivo do partido.
Hoje o PC do B diz ter 14 deputados federais, 18 estaduais, 2 senadores, 42 prefeitos, 66 vice-prefeitos e 608 vereadores. Números modestos para a força que o partido adquiriu no governo de Lula e, depois, no de Dilma Rousseff, se comparados aos de outras legendas aliadas.

No governo Lula, o PC do B lutou pelo Ministério da Defesa, mas ganhou o do Esporte e a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Na gestão Dilma, obteve a Embratur, entregue ao ex-deputado Flávio Dino (MA).

Juventude

Embora tenha 89 anos - fundado em 1922, passou por um racha com a ala de Luiz Carlos Prestes e tem a idade contestada pelo PPS, sucedâneo do PCB - e carregue uma história marcada por tragédias, mortes e massacres, o PC do B exerce forte atração na juventude, por causa da máquina partidária que conta com o aparelhamento da UNE, nas universidades, e células que atuam principalmente entre os operários.

Em 2001, o PC do B tinha 33.948 militantes filiados; em 2005, 69.638; e em 2009, data da última contagem e do último congresso, 102.330. O partido tem sede própria, um prédio de oito andares no centro de São Paulo. O imóvel custou R$ 3,3 milhões, comprado, segundo o partido, com verba do Fundo Partidário (em 2010, recebeu R$ 4,3 milhões; neste ano, até setembro, R$ 6,6 milhões) e com a contribuição de militantes.

Nenhum militante está dispensado de uma severa disciplina partidária. O partido é estruturado nas chamadas Organizações de Base (OBs) e todos têm tarefas, nem que seja ler e divulgar o jornal do partido, A Classe Operária, e se aprofundar no estudo do marxismo-leninismo.

As OBs devem formar-se nos locais de trabalho, moradia ou escolas. O partido adota o centralismo democrático leninista. De acordo com o estatuto, "o partido age como um todo uno, sob o primado de uma disciplina livre e conscientemente assumida. A unidade é a força do partido" (capítulo 5.º do estatuto). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

- Coligações serão proibidas em eleições proporcionais

Coligações serão proibidas em eleições proporcionais

 por prof. Cardozo
 
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) confirmou hoje - por 14 votos a 3 - a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição que proíbe as coligações nas eleições proporcionais. Relatado pelo senador Valdir Raupp (PMDB-RO), o texto já tinha sido examinado pela CCJ, mas teve de ser revisto porque recebeu emendas no plenário. Pela proposta, as coligações serão permitidas unicamente na eleição de presidente da República, senadores, governadores e prefeitos.

Tidas como uma aberração pela maior parte dos parlamentares, são as coligações proporcionais que permitem que um deputado bem votado "puxe" para a Câmara candidatos sem representatividade, sem chance de se eleger com os próprios votos. Os dois exemplos mais notórios são os do ex-deputado Enéas Carneiro (PR-SP) e o atual deputado Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca (PR-SP), eleitos com mais de um milhão de votos, que favoreceram candidatos coligados inexpressivos, sem eleitorado suficiente para ocupar um mandato parlamentar.

Preocupado com o futuro de seu partido, o líder do PCdoB, senador Inácio Arruda (CE), apresentou voto separado tentando derrubar a proibição. Se a decisão for aprovada nas duas Casas e virar lei, o PCdoB ficará impedido de se coligar com o PT ou outros partidos maiores para eleger deputados e vereadores. Arruda chamou o fim das coligações proporcionais de "coisa estranha", que no seu entender dificultará o processo político democrático. "Isso é reacionário, não ajuda o País", alegou.

O relator Valdir Raupp rebateu, lembrando que a proibição fortalecerá os partidos políticos, "acabando com essenegócio de se encostar numa coligação para se eleger". Os dois outros votos contrários à proibição são dos senadores Antonio Carlos Valadares (PSB-SE)e Marcelo Crivella (PRB-RJ).
 

-Marx estava certo... sobre o capitalismo

Marx estava certo... sobre o capitalismo

Atualizado em  18 de setembro, 2011 - 11:25 (Brasília) 14:25 GMT

Foto: Getty
Marx pode ter errado sobre o comunismo, mas estava certo sobre o capitalismo, diz Gray
Como efeito colateral da crise financeira, mais e mais pessoas estão começando a pensar que Karl Marx estava certo. O grande filósofo, economista e revolucionário alemão do século 19 acreditava que o capitalismo era radicalmente instável.
Ele tem uma tendência intrínseca de produzir avanços e fracassos cada vez maiores, e no longo prazo, ele estava destinado a se autodestruir.
Marx saudava a autodestruição do capitalismo. Ele era confiante que uma revolução popular ocorreria e daria origem um sistema comunista que seria mais produtivo e muito mais humano.
Marx estava errado sobre o comunismo. Aquilo sobre o que ele estava profeticamente certo era a sua compreensão da revolução do capitalismo. Não era somente a instabilidade endêmica do capitalismo que ele compreendia, embora neste sentido ele fosse muito mais perspicaz do que a maioria dos economistas da sua época e da nossa.
Mais profundamente, Marx compreendeu como o capitalismo destrói a sua própria base social - o meio de vida da classe média. A terminologia marxista de burguês e proletário tem um tom arcaico.
Mas quando ele argumentava que o capitalismo iria arrastar as classes médias a algo parecido com a existência precária dos sobrecarregados trabalhadores de sua época, Marx previu uma mudança na maneira como vivemos à qual só agora estamos lutando para nos adaptarmos.
Karl Marx
Marx escreveu o Manifesto Comunista com Friedrich Engels
Ele via o capitalismo como o sistema econômico mais revolucionário da história, e não pode haver dúvida de que ele se diferencia daqueles que vieram antes dele.
Os caçadores e coletores persistiram nesta forma de vida por milhares de anos, enquanto as culturas escravagistas permaneceram assim por quase o mesmo tempo, e as sociedades feudais sobreviveram por muitos séculos. Em contraste, o capitalismo transforma tudo que ele toca.
Não são só as marcas que estão mudando constantemente. As empresas e as indústrias são criadas e destruídas em um fluxo incessante de inovação, enquanto as relações humanas são dissolvidas e reinventadas em novas formas.
O capitalismo foi descrito como um processo de destruição criativa, e ninguém pode negar que ele foi prodigiosamente produtivo. Praticamente qualquer um que esteja vivo na Grã-Bretanha hoje tem uma renda real maior do que eles teriam se o capitalismo nunca tivesse existido.
Retorno negativo
O problema é que entre as coisas que foram destruídas no processo está o estilo de vida do qual o capitalismo dependia no passado.
Defensores do capitalismo argumentam que ele oferece a todos os benefícios que, na época de Marx, eram desfrutados somente pela burguesia, a classe média estabelecida que possuía capital e tinha um razoável nível de segurança e liberdade em suas vidas.
No capitalismo do século 19, a maioria das pessoas não tinha nada. Elas viviam de vender o seu trabalho, e quando os mercados entravam em queda, eles enfrentavam tempos difíceis. Mas à medida que o capitalismo evolui, seus defensores dizem, um número crescente de pessoas pode se beneficiar dele.
Foto: AFP
Os mercados apresentam muita volatilidade
Carreiras bem-sucedidas não serão mais a prerrogativa de uns poucos. As pessoas não terão dificuldades todo mês para subsistir com base em um salário inseguro. Protegidos pelas economias, pela casa que possume e uma pensão decente, eles serão capazes de planejar suas vidas sem medo.
Com o crescimento da democracia e a distribuição da riqueza, ninguém precisará ser privado da vida burguesa. Todo mundo poderá ser da classe média.
Na verdade, na Grã-Bretanha, nos EUA e em muitos outros países desenvolvidos nos últimos 20 ou 30 anos, o contrário vem ocorrendo. A segurança do emprego não existe, as atividades e as profissões do passado em grande parte acabaram e as carreiras que duram uma vida inteira são meramente lembranças.
Se as pessoas têm qualquer riqueza, isto está nas suas casas, mas os preços dos imóveis nem sempre crescem. Quando o crédito fica restrito como agora, eles podem ficar estagnados por anos. Uma minoria cada vez menor pode contar com uma pensão com a qual pode viver confortavelmente, e não são muitos os que tem economias significativas.
Mais e mais pessoas vivem um dia de cada vez, com pouca noção do que o futuro pode reservar. AS pessoas da classe média costumavam imaginar as suas vidas desdobradas em uma progressão ordenada. Mas não é mais possível olhar para uma vida como uma sucessão de estágios em que cada um é um passo dado a partir do último.
No processo da destruição criativa, a escada foi afastada, e para um número cada vez maior de pessoas, uma existência de classe média não é mais sequer uma aspiração.
Assumindo riscos
Enquanto o capitalismo avançava, ele devolveu as pessoas a uma nova versão da existência precária do proletariado de Marx. As nossas rendas são muito maiores, e em algum grau nós estamos protegidos contra os choques por aquilo que resta do Estado de bem-estar social do pós-guerra.
Mas nós temos muito pouco controle efetivo sobre o curso das nossas vidas, e a incerteza na qual vivemos está sendo piorada pelas políticas voltadas para lidar com a crise financeira.
As taxas de juros a zero em meio a preços crescentes querem dizer que as pessoas estão tendo um retorno negativo de seu dinheiro, e ao longo do tempo o seu capital está se erodindo.
"Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos."
John Gray, filósofo político
A situação de muitas das pessoas mais jovens é ainda pior. Para adquirir os talentos de que precisa, a pessoa tem de se endividar. Já que em algum ponto será necessário se reciclar, é preciso tentar economizar, mas se a pessoa está endividada desde o começo, esta é a última coisa que ela poderá fazer.
Não importa a sua idade, a perspectiva que a maioria das pessoas enfrenta é de uma vida de insegurança.
Ao mesmo tempo em que privou as pessoas da segurança da vida burguesa, o capitalismo criou o tipo de pessoa que vive a obsoleta vida burguesa. Nos anos 80, havia muita conversa sobre valores vitorianos, e propagandistas do livre mercado costumavam argumentar que ele traria de volta para nós os íntegros valores de outrora.
Para muitos, as mulheres e os pobres, por exemplo, estes valores vitorianos podem ser bastante ilógicos em seus efeitos. Mas o fato mais importante é que o livre mercado funciona para corroer as virtudes que mantêm a vida burguesa.
Quando as economias estão se perdendo, ser econômico pode ser o caminho para a ruína. É a pessoa que toma pesados empréstimos e não tem medo de declarar a insolvência que sobrevive e consegue prosperar.
Quando o mercado de trabalho está altamente volátil, não são aqueles que se mantém obedientemente fiéis a sua tarefa que são bem-sucedidos, e sim as pessoas que estão sempre prontas para tentar algo novo e que parece mais promissor.
Em uma sociedade que está sendo continuamente transformada pelas forças do mercado, os valores tradicionais são disfuncionais, e qualquer um que tentar viver com base neles está arriscado a acabar no ferro-velho.
Vasta riqueza
Olhando para um futuro no qual o mercado permeia cada canto da vida, Marx escreveu no 'Manifesto Comunista': "Tudo que é sólido se desmancha no ar". Para alguém que vivia na Grã-Bretanha no início do período vitoriano - o Manifesto foi publicado em 1848 -, isto era uma observação incrivelmente perspicaz.
Naquela época, nada parecia mais sólido que a sociedade às margens daquela em que Marx vivia. Um século e meio depois, nos encontramos no mundo que ele previu, onde a vida de todo mundo é experimental e provisória, e a ruína súbita pode ocorrer a qualquer momento.
Foto: AFP
Medidas de austeridade para reduzir dívida grega acabaram em revoltas
Uns poucos acumularam uma vasta riqueza, mas mesmo isso tem uma característica evanescente, quase espectral. Na época vitoriana, os muito ricos podiam relaxar, desde que eles fossem conservadores com a maneira como eles investiam seu dinheiro. Quando os heróis dos romances de Dickens finalmente recebem sua herança, eles nunca mais fazem nada na vida.
Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos.
Este estado de inquietação perpétua é a revolução permanente do capitalismo, e eu acho que ele vai ficar conosco em qualquer futuro que seja realisticamente imaginável. Nós estamos apenas no meio do caminho de uma crise financeira que ainda deixará muitas coisas de cabeça para baixo.
As moedas e os governos provavelmente ficarão de ponta-cabeça, junto de partes do sistema financeiro que nós acreditávamos estar a salvo. Os riscos que ameaçavam congelar a economia mundial apenas três anos atrás não foram enfrentados. Eles foram simplesmente deslocados para os Estados.
Não importa o que políticos nos digam sobre a necessidade de controlar o déficit. Dívidas do tamanho das que foram contraídas não podem ser pagas. Elas quase que certamente serão infladas - um processo que está destinado a ser doloroso e empobrecedor para muitos.
O resultado só pode ser mais revoltas, em uma escala ainda maior. Mas isto não será o fim do mundo, ou mesmo do capitalismo. Aconteça o que acontecer, nós ainda teremos que aprender a viver com a energia mercurial que o mercado emitiu.
O capitalismo levou a uma revolução, mas não a que Marx esperava. O feroz pensador alemão odiava a vida burguesa e queria que o comunismo a destruísse. E assim como ele previu, o mundo burguês foi destruído.
Mas não foi o comunismo que conseguiu esta proeza. Foi o capitalismo que eliminou a burguesia.